domingo, 30 de novembro de 2025
Meus idos anos
sábado, 13 de setembro de 2025
Há fim?
Já não será tão diferente do que é a vida agora.
Vivo? Ou apenas estou.
Quando enfim o fim chegar
Toda dor e sofrimento findará?
Eu não sei quem sou.
Quando enfim o fim chegar
Haverá outro lado, outra luz?
Ou tudo será sombra?
Se quando enfim o fim chegar
É tudo sombra for não haverá diferença do agora
Vivo na sombra, vivo em sombras
Vivo de sobras e pouco me basta
Quando enfim o fim chegar
Será o dia da libertação da alma
Da prisioneira deste decrépito corpo
Quando enfim o fim chegar
Poderei não mais ser, não mais saber
Não mais doer, não mais pensar, penar
Só poderei morrer
E morrer não será muito distante do que sou neste tempo
Quando enfim o fim chegar
Não mais haverá.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025
MARIA BETHÂNIA, há 60 anos tradutora do Brasil
Há exatos 60 anos atrás, quando foi apresentada
ao País, estreando no show Opinião, aquela garota que contava
apenas 18 anos, tornou-se de pronto uma tradutora do Brasil e dos costumes de
seu povo. Bethânia de cabelos presos com seu perfil águia, dona de um nariz
aquilino, era o próprio carcará que a canção de João do Vale e José Cândido
descrevia. A sua forte interpretação dava a impressão de que aquela menina era
uma mulher de muitas vidas, de longa estrada... Na vida Bethânia foi muitas e
vem tecendo uma comprida estrada. Bethânia foi muitas pois nunca se prendeu a
estilos, modelos, nunca se vendeu, jamais se dobrou à pressões. Construiu com o
passar do anos uma carreira sólida e completa. Tornou-se uma das maiores vozes
que este Brasil já conheceu. E mesmo sendo muitas, a cantora de protesto, a
romântica, a abelha rainha, manteve-se fiel aos seus princípios. A menina
nasceu ligada à música. Foi por conta de uma canção de Capiba que fazia sucesso
no rádio na voz de Nelson Gonçalves que seu irmão, o até então caçula da casa,
implorou ao pai que a irmãzinha que estava para nascer se chamasse Maria
Bethânia. Os de casa contam que por dengo ao filho mais novo seu Zezinho teria
trapaceado em um sorteio onde todos puderam dar sua sugestão. Não houve jeito.
Era o destino, o nome escolhido foi Maria Bethânia. Sorte dela que escapou por
um triz de chamar-se Mary Gislayne.
Desde muito cedo Maria já apontava que
correria na contramão. Ainda em Salvador, amadora, a menina escolheu cantar
Nöel em um show de bossa nova, eram os tempos do Nós, Por Exemplo, show
que a unia ao irmão Caetano, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Alcyvando Luz,
Perna Fróes, Djalma Corrêa e Fernando Lona para inauguração do Teatro Vila
Velha. Foi por conta dos shows realizados no Vila que a sorte de Bethânia brilhou,
foi ali que Nara Leão a ouviu e se encantou. E logo após sugeriu o nome da
baiana para substituí-la no Opinião,
o show que mercou época, o primeiro grito de resistência contra o regime
ditatorial instalado depois do golpe militar de 31 de março de 1964. Bethânia
que quase não foi ao Rio pois, mau humorada por estar em segunda época de
matemática, o terror da sua vida, debochou do telefonema de Nilda Spencer,
grande atriz baiana, que tentava transmitir o convite vindo dos cariocas. Mas,
como disse uma vez seu sábio mano Caetano: “É engraçado a força que as coisas
parecem ter quando elas precisam acontecer”. Bethânia rumou para o sudeste de
braços dados com seu irmão para estremecer Copacabana com seu canto forte e
potente.
Após a explosão do Carcará tentaram prendê-la
no rótulo de “cantora de protesto” os tempos eram sombrios e difíceis, mas
Bethânia derramou-se nas noites das boates do Rio de Janeiro cantando tudo que
lhe dava na telha, principalmente velhos sambas-canções do repertório de Dalva
e Elizeth. Foi ela quem apontou ao irmão Caetano, seu companheiro nos inícios
cariocas, a música de Roberto Carlos e sua Jovem Guarda. Foi ela quem pediu ao
irmão uma canção sobre uma t-shirt
onde lia-se “Baby, I love you”, mas desistiu de gravá-la no disco que o irmão e
Gil arquitetavam para lançar o movimento musical que eles criaram nas famosas
reuniões no Hotel Danúbio. A canção foi gravada por Gal, virou sucesso e o
resto é história e das boas.
Nos anos de 1960 Bethânia encontra aquele que seria seu guru-mestre-amigo-parceiro-diretor, o homem que a ajudou a traduzir em sons e palavras tudo que ela queria dizer em cima de um palco: Fauzi Arap. Fauzi foi um profícuo colaborador ao longo dos anos, juntos criaram um formato de espetáculo que foi norte da cantora até os mais recentes trabalhos. Comigo Me Desavim, de 1967 foi o primeiro de muitos trabalhos que realizaram até o encantamento de Fauzi em 2013. Ao pensamento arguto de Fauzi, os gostos, sugestões e ideias de Bethânia juntaram-se os talentos musicais do Terra Trio, formado por Zé Maria, Ricardo e Fernando. Além da colaboração do cenógrafo Flávio Império. Nestes espetáculos, sempre apresentados em teatros, Bethânia pôde dar vazão à sua dramaticidade de atriz e consolidar-se como uma das maiores intérpretes do Brasil. Com roteiros construídos entre canções e textos estes espetáculos propunham dramaturgias intrincadas e cheias de metáforas, afinal a censura estava cada dia mais cruel, principalmente depois do 13 de dezembro de 1968, com a promulgação do AI-5. Fauzi colaborou com Bethânia até sua morte, em 2013, seja na direção de espetáculos seja na autoria de roteiros para os shows, estiveram juntos em diversos trabalhos antológicos da história recente da música brasileira, como Rosa dos Ventos, o show encantado de 1971, no Teatro da Praia em Ipanema no Rio de Janeiro, com produção de Benil Santos, figurinos e cenários de Flávio Império. Estes shows tinham um fio condutor alinhavado pelas letras das canções escolhidas e por textos, algumas vezes poemas outras vezes trechos em prosa, em que Bethânia se atuava plenamente na fronteira entre cantora-atriz que é. E esta posição, que ela nunca assumiu, foi balizada por gente de grande porte, como a grande Bibi Ferreira, que também a dirigiu em alguns trabalhos. Bibi afirmou e reafirmou diversas vezes que Bethânia é uma grande atriz. Vale lembrar que em 1970, sob a batuta de Bibi, em companhia do grande ator Ítalo Rossi, Bethânia participou da primeira montagem do show musical Brasileiro, profissão esperança de Paulo Pontes, em homenagem a Dolores Duran e Antonio Maria.
Nos anos de 1970 Bethânia conhece duas figuras
que irão nortear muito de sua produção artística a partir de então: Fernando
Pessoa e Mãe Menininha do Gantois. A partir de Rosa dos Ventos, Pessoa passará
a ser presença constante nos roteiros dos espetáculos, sempre com um destaque
especial. Já Mãe Menininha, Bethânia conhece através de Vinícius de Moraes, a
esta altura seu grande amigo. A partir do contato com a casa do Gantois,
Bethânia começa a apresentar mais fortemente em seu trabalho sonoridades e
reverência à cultura afro-brasileira e ao candomblé, religião que passará a
seguir. E como boa baiana que é concilia tranquilamente sua religião de berço,
o catolicismo e sua devoção à Nossa Senhora, com o culto aos seus orixás de
cabeça, Oyá e Oxum. Eis desvelada a partir de então mais uma vertente da
tradução tão pura e completa que a cantora faz do seu povo. O povo do recôncavo
da Bahia, o povo do Brasil, o seu povo.
Suas raízes fincadas no solo massapê da cidade
de Santo Amaro da Purificação estarão sempre patentes no seu trabalho, o
respeito à sua terra, ao povo de sua terra, à sua casa, tão feliz, tão cheia de
festa, amor e devoção. A doçura de sua mãe Canô, o amor às palavras e a candura
de seu pai Zeca, as devoções dos santos de casa, com reverência maior à Nossa
Senhora da Purificação. As alegrias das festas de fevereiro, a lavagem, o
samba-de-roda, Dona Edith do Prato, Roberto Mendes, Roque Ferreira, os
candomblés de caboclos, o bembé do marcado, o cheiro de cana, o Subaé, a
Cachoeira da Vitória. Bethânia sempre fitou os Andes, mas nunca esqueceu seu locus de origem. A força que nunca seca
esteve sempre na Purificação, na casa 179 da Avenida Viana Bandeira, casa
habitada por sua gente, onde Mãe Canô se encantou aos 105 anos em um 25 de
dezembro.
Nos anos de 1970 Bethânia “vira” cantora
“romântica”, torna-se a primeira mulher a vender um milhão de discos, com Álibi
de 1978, é sucesso nacional, toca nas rádios FMs e AMs. Suas gravações de Explode Coração e Negue viram sucesso instantâneo. É a cantora popular, a Rainha, ou
melhor a Abelha Rainha, a Roberto Carlos de saias. Atinge o coração do povo com
duas canções de amor. Está no disco, no rádio, na TV, está antes de tudo no
palco, com shows que cumprem temporadas vitoriosas ao longo dos anos. Ainda
durante a década de 1970 sobe ao palco com seu amigo e ídolo Chico Buarque para
uma temporada que durou seis meses no Canecão, a mítica casa de show localizada
no bairro de Botafogo no Rio, o show tornou-se histórico, o disco gravado ao
vivo com parte do repertório do show virou clássico e um encontro desta
magnitude fez até surgirem discos voadores no céu do Rio de Janeiro. No ano
seguinte, 1976, reúne-se aos amigos-irmãos Caetano, Gil e Gal para uma turnê
que rodou o país, criavam Os Doces Bárbaros, que após uma
estreia retumbante em São Paulo no Anhembi rodou o Brasil e terminou no
Canecão. O show virou filme, dirigido por Tom Job Azulay e disco duplo gravado
ao vivo. Entre tantos sucessos Bethânia encerra a década com um disco doce: Mel. Da belíssima letra de Wally
Salomão para canção de Caetano, gravada neste disco de 1979, surge um dos epítetos
que ela carregará desde então: Abelha Rainha.
Maria adentra a década de 1980 já consagrada
como grande cantora, intérprete, mulher de palco e recordista em vendagem de
discos. Mas quando tudo parecia quieto demais, pasteurizado, ela dá uma guinada
ao construir um dos mais belos discos gravados no Brasil, o seu preferido, com
uma sonoridade acústica em contraponto à sonoridade metálica e eletrônica que
dominava a música brasileira neste momento. Ciclo é uma joia na vasta discografia de Bethânia. Na sequência
estreia um show baseado no livro A Hora
da Estrela de Clarice Lispector, uma de suas paixões. O espetáculo homônimo
ao livro faz reverência à escritora e gera o disco seguinte, A Beira e o Mar, com gravação de
canções pertencentes ao roteiro do show. Bethânia começa a fazer um percurso
mais intimista com discos como Dezembros
(1986), Maria (1988), 25 anos (1990) e Olho D’água (1992) e shows como Dadaya e as sete moradas (1988). O disco de 1992, por exemplo, é um
dos discos menos celebrados por seu caráter quase hermético. Mas, quando
Bethânia parecia fechar-se em concha para o grande público sua bússola dá uma
guinada e se reorienta. E ela derrama-se sobre o repertório ultrarromântico de
Roberto e Erasmo Carlos. As Canções que
você fez pra mim, de 1993, tornou-se rapidamente um clássico, com direito à
uma versão do disco com gravações das canções em espanhol destinado ao público
hispânico. Bethânia retorna às paradas de sucesso. Repete o sucesso de vendas
de outros tempos. Bethânia é popular, é cantora do povo.
Em 1994, mais uma vez reúne-se aos
companheiros Gal, Gil e ao mano Caetano para uma linda homenagem da sua escola
de samba do coração: Estação Primeira de Mangueira. Os Doces Bárbaros são homenageados
com o enredo ‘Atrás da Verde-e-rosa só não vai quem já morreu’, e Bethânia se
fez presente no desfile na Marquês de Sapucaí. Ao completar 50 anos de idade,
em 1996, troca mais uma vez de gravadora e lança Âmbar, disco em que pela primeira vez grava uma canção de Adriana
Calcanhotto. E em 1999 dá mais uma cartada de mestre ao gravar no disco A força que nunca seca o clássico da música
sertaneja É o amor. Novamente
acerta em cheio. Bethânia mostra mais uma vez que não importa o gênero, o que
importa é se a música é boa.
Os anos 2000 começam com uma grande novidade,
Bethânia rompe contrato com sua última gravadora multinacional e começa uma
nova fase ao se integrar ao elenco da então pequena gravadora Biscoito Fino.
Esta atitude é totalmente coerente com o que vinha fazendo ao longo da
carreira. Nesta nova casa poderia fazer tudo o que quisesse e do jeito que
quisesse. Sem prender-se às demandas do mercado musical. E assim fez. Com
discos em que cada vez mais colocou explicitamente o seu pensamento sobre o seu
lugar. Em 2003 grava um disco para o lançamento do seu próprio selo Quitanda, vinculado
à Biscoito Fino. Brasileirinho, o disco
de estúdio já apontava a potência que explodiria quando transposto ao palco. Ao
estrear o show no palco do seu velho Caneção, com direção de Bia Lessa, cenário
de Grinco Cardia, participação de Nana Caymmi, Miúcha, Uakti, Tira Poeira,
Denise Stoklos, Brasileirinho, o
show, tornou-se um documento histórico, a súmula da cultura musical brasileira.
Este disco/show é material de diversos projetos pedagógicos em escolas do país.
Bethânia, a menina que sempre detestou a escola, tornou-se mestra. Professora que
nos ensina tanto através de seu pensamento cênico-musical.
Ao lançar um projeto em 2008, em que se juntou
à cantora cubana Omara Portuondo, Bethânia estreitou relações com a comunidade
latina, ao irmanar sonoridades brasileiras e cubanas no disco e no show que
percorreu o Brasil e países como Argentina e Chile. Em 2010, no show Amor, Festa e Devoção, que rendia homenagem
à sua mãe já centenária Bethânia, com seu jeito todo especial, retorna ao
universo sertanejo, ao unir É o amor e Vai dar namoro, canção do repertório da
dupla sertaneja Bruno & Marrone. O público ia ao delírio com o trecho da
canção e o olhar cheio de dengo baiano que a cantora lançava para a plateia.
A convite da Universidade Federal de Minas Gerais
Bethânia realiza uma leitura de poemas e textos para abrir o projeto Sentimentos
do Mundo realizado na universidade mineira. Esta leitura gerou o projeto Bethânia e as palavras, recital em que
a palavra falada era o foco. A cantora percorreu quase todo o Brasil com esta
leitura que gerou um registro em vídeo e em livro.
No Natal de 2012 Santo Amaro da
Purificação chora a perda de Canô, a matriarca dos Velloso se encanta aos 105 anos.
É um baque para Bethânia que suspende suas apresentações do show Carta de Amor. Mas a vida continua, e
mesmo de luto, retoma no não seguinte a turnê do espetáculo. Em 2015, ao
completar 50 anos de carreira estreia o show Abraçar e Agradecer. É homenageada pelo Prêmio da Música Brasileira
e fechando o ano comemorativo do jubileu de ouro, desfila pela Mangueira como enredo
da escola. Maria Bethânia, a menina dos
olhos de Oyá sagra a Estação Primeira campeã do carnaval carioca. E na
madrugada de 13 para 14 de fevereiro a verde-e-rosa entrou na avenida para o
desfile das campeãs. Não havia forma melhor de encerrar as comemorações do
cinquentenário de uma carreira tão sólida e pulsante. A escola de Cartola e
dona Zica, colocou na Sapucaí toda religiosidade, sincretismo e mistura
cultural que Bethânia transpirou em sua música desde o grito do Carcará. O
carnaval de 2016 da Mangueira gerou dois filmes, um deles, Fevereiros dirigido por Márcio Debellian foi exibido em diversos
cinemas do país.
A relação de Bethânia com o cinema,
aliás, do cinema com Bethânia é antiga. Paulo César Saraceni, registrou a
antológica interpretação de Carcará no show Opinião para o seu filme O
Desafio, e graças a ele este momento histórico ficou registrado. Ainda nos
anos 1960 a cantora foi personagem central do documentário Bethânia bem de perto, a propósito de um show, dirigido por Júlio
Bressane e Lauro Escorel. Em 1969 participa do documentário Saravah do francês Pierre Barouh, onde
aparece ao lado de um jovem Paulinho da Viola cantando sambas. Em 1972 tem seu
momento atriz ao lado de Nara Leão e Chico Buarque em Quando o Carnaval Chegar de Cacá Diegues. Foi tema ainda dos
documentários Maria Bethânia do Brasil
de Hugo Santiago feito para a TV francesa em 2001, Música é Perfume do francês Georges Gachot de 2005, Pedrinha de Aruanda de 2006 dirigido
por Andrucha Waddigton e Maria, ninguém
sabe quem sou eu, de Carlos Jardim lançado em 2022. É possivelmente a
artista brasileira mais registrada em documentário até hoje.
Surpreendendo todos os fãs, em 2018,
Bethânia anuncia uma turnê em conjunto com Zeca Pagodinho. O show estreou na
cidade do Recife em 07 de abril. A cantora dava mais uma prova de que, apesar
de ser identificada com uma música dita ‘elitizada’, para ela não há barreiras.
Afinal ela é uma cantora popular e música é música independente do rótulo que
se lhe dê. No roteiro do show os cantores passeavam pelo repertório do samba
brasileiro com interpretações de clássicos como Sonho Meu, A voz do Morro,
Falsa Baiana, X do Problema, Naquela Mesa, Chão de Estrelas, além das devidas
homenagens à Mangueira, escola do coração de Berré e Portela, a escola de Zeca.
Irmanavam a Bahia e o Rio pelo que os une há mais de um século: o bom Samba.
2019, Bethânia volta aos tempos das Boates de
Copacabana, ao estrear o show Claros
Breus, em uma pequena casa no Rio de Janeiro, o Manouche. Este espetáculo
que viajou algumas cidades do Brasil deu origem ao disco Noturno em que ela gravou canções de alguns jovens compositores
como Tim Bernardes e seu sobrinho Zeca Veloso. Como havia feito em diversos
momentos de sua carreira, abre espaço para novos compositores, assim como havia
feito com Gonzaguinha, Ângela Ro Ro, Adriana Calcanhotto, Chico César, Vanessa
da Mata, Ana Carolina, Lenine. Sempre antenada com as novidades da música do
país, Bethânia lançou sua luz sobre novos artistas.
Durante a pandemia que assolou o
planeta em 2020/21, Maria fez seu afago no público que ansioso esperava o
reencontro com sua cantora. Mesmo aversa às câmeras ela realizou duas
lives/espetáculos. Uma dessas apresentações aconteceu no dia 13 de fevereiro de
2021, como comemoração dos 56 anos de carreira da cantora e foi transmitida por
uma plataforma streaming.
2022 e 2023 são anos de grandes
perdas para a cantora e para o Brasil: Elza, Rita, Erasmo, Sueli Costa e Gal. Com
tantos anos na estrada e o passar implacável do tempo a artista começa a sua
geração envelheceu e começa a se despedir não só dos palcos como faz Milton
Nascimento, mas começa a se encantar. A morte inesperada de Gal em novembro de
2022 abalou todo o Brasil. Perdemos uma das mais belas vozes já ouvidas nestas
terras. Podemos crer que foi depois desse baque que Bethânia e Caetano
balançaram o país quando anunciaram no final de 2023 uma turnê que fariam em
2024. Os irmãos reeditariam o histórico encontro acontecido em 1978 no Teatro
Santo Antônio localizado na Escola de Teatro da Bahia, em Salvador. O furor
causado pela notícia demonstrou a legião de fãs que os Veloso conquistaram em
mais de seis décadas de estrada. Com ingressos disputados quase a tapas e
esgotados em poucas horas a tour Caetano
& Bethânia anunciada como a maior turnê de 2024, já passou por nove
capitais lotando estádios, com direito a show na praia de Copacabana no Réveillon
2025 e deverá se encerrar em março em Porto Alegre. O show, centrado na obra
autoral de Caetano celebra as carreiras dos irmãos, porém além da celebração paira
uma aura de despedida, de encerramento de um ciclo, de fim de uma era. É alegre
e triste. Com momentos de extrema comoção dos artistas e do público, como a
homenagem à Gal, com eles cantando Baby, a clássica canção tropicalista. Mas tudo
é mágico neste encontro e por fim saímos felizes porque eis ali tudo de novo.
Entre as grandes honrarias recebidas
pela cantora em reconhecimento ao seu trabalho tão significativo para a cultura
nacional estão o título de Doutora Honoris Causa concedido pela Universidade
Federal da Bahia (2016), a eleição para ocupar a cadeira de número 18 da
Academia de Letras da Bahia, título de Doutora Honoris Causa concedido pela
Universidade Federal do Ceará. Doutora Maricotinha consagrou-se como uma das
figuras mais importantes da cultura brasileira.
Bethânia foi sendo aplaudida e reverenciada
ao longo dos anos por seu extraordinário trabalho de palco. Aprimorou o formato
de espetáculo que desenvolveu ainda no início da carreira com seu parceiro
Fauzi e construiu um discurso coeso e coerente desde sempre. Seus shows
apresentam sempre uma dramaturgia bem construída através da seleção das canções
e textos. Estas dramaturgias aliadas ao magnetismo da intérprete que se
agiganta na arena transformam-na em uma verdadeira atriz que interpreta uma
nova personagem a cada nova canção ou poema recitado. Traduzindo através destes
espetáculos quase teatrais a alma do povo brasileiro. Ecoando suas influências,
reverberando seus mestres, suas inspirações. Quando Bethânia entra no palco
estão com ela Dalva de Oliveira, Aracy de Almeida, Billie Holiday, Judy
Garland, as grandes vozes que encantavam a menina ainda nos tempos de Santo
Amaro da Purificação. Seu trabalho deverá ser lido pelas futuras gerações como
um verdadeiro retrato do Brasil. O Brasil de verdade, o Brasil de dentro como
costuma dizer. Pois não há nada mais brasileiro do que uma mulher, descendente
de indígenas, afro-brasileiros e europeus, mestiça, nordestina, baiana que sobe
ao palco há 60 anos para se conectar com suas raízes, com suas religiões, com
sua gente, fazendo do tablado a sua tribuna para difundir suas ideias, rasgar o
peito com canções de amor e gritar sua esperança de que este país siga um rumo
bonito.
Obrigado por tudo e por muito,
Maria.
domingo, 12 de janeiro de 2025
Beijos de um calor de sonho de verão
segunda-feira, 6 de janeiro de 2025
O banquete.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2024
Caminho à morte
sábado, 9 de dezembro de 2023
Engano-me
sexta-feira, 10 de novembro de 2023
Tão longe
segunda-feira, 28 de agosto de 2023
O amor passou...
terça-feira, 25 de julho de 2023
Um Sábado em 30: 60 anos de um clássico do Teatro Pernambucano
Hoje remexendo em uns arquivos fotográficos me deparei com umas imagens do espetáculo Um Sábado em 30 montado pelo Teatro de Amadores de Pernambuco. E me lembrei que neste mês de julho, mais precisamente no último dia 08, completaram-se 60 anos da estreia desta montagem.
Quem
me conhece, quem já conversou um pouco comigo sabe da verdadeira loucura que eu
tenho pelo TAP e por Um Sábado em 30. O Teatro de Amadores e
suas histórias contadas por quem viveu nos bastidores do imponente Teatro de
Santa Isabel fazem parte da minha vida desde que eu me entendo por gente. Minha
saudosa avó materna, Cecy, sempre fez questão de manter viva a memória de seu
pai, Francisco Miranda, ou simplesmente Chico Miranda. Meu bisavô foi mordomo
do Teatro de Santa Isabel, primeiro contrarregra do Teatro de Amadores,
secretário particular de Dr. Valdemar - nas histórias de minha vó Valdemar de
Oliveira, o grande homem de Teatro, sempre foi Dr. Valdemar -, ela gostava, particularmente,
de falar da honestidade de Chico Miranda e da confiança que Dr. Valdemar tinha
nele. Era ele quem sempre ia buscar as joias (verdadeiras) que eram emprestada
pela joalheria de Seu Brito (também ator do TAP), o diretor do TAP só confiava
esta missão ao meu bisavô. Em seu livro de memórias Mundo Submerso, Valdemar deixou registrada as seguintes palavras:
Outro que nos fez tremenda falta
foi o humilde e eficiente Francisco Miranda, meu braço direito, durante 12
anos, na direção do Santa Isabel. No TAP, era uma espécie de factótum, em todas
as eventualidades: manejava a linha e a agulha, pregava, pintava, trainelava,
dominando o martelo, a tesoura, o pincel como o mais eficiente profissional;
estava na contrarregra e nada nos faltava; corria à bilheteria, fazia contas,
recebia e pagava, tudo em ordem; colecionava recortes, fazia lançamentos,
organizava balancetes, estava presente a tudo. Pois, se havia um camarada, de
nome desconhecido, que confeccionava certo adereço e trabalhava para as bandas
do Cordeiro ou de Iputinga, nada se sabia ao certo, Chico Miranda ia lá, na
manhã seguinte, descobri-lo. De tarde quando me aparecia, já trazia o homem
consigo, como uma rês laçada. Conheceu, conosco, quase todo o Brasil, em
repetidas excursões. E era de uma fidelidade de cão. Se alguma vez confiei
cegamente num homem, esse homem foi Chico Miranda, pobre e honestíssimo.
Doente, visitei-o, ao partir para uma viagem ao estrangeiro. Apertou-me a mão, num pressentimento terrível. E chorou como se definitivamente se despedisse de mim. Com efeito, fora uma despedida para sempre. Sobre seu túmulo, digo-lhe, hoje, a maior verdade: nunca o esqueci. E jamais encontrei quem o substituísse.[1]
Meu bisavô morreu em uma terça-feira
de carnaval, em 1960. Minha avó contava que seu velório foi cheio de gente de
teatro, de gente fantasiada que saía dos bailes para ir se despedir daquele
homem, calado, que tanto amou o Teatro de Santa Isabel, que tanto se dedicou ao
Teatro de Amadores. Ele foi, dignamente enterrado em um dos túmulos destinados
ao pessoal de Teatro no Cemitério de Santo Amaro. Mas sua memória permaneceu
viva, sua história continuou com seu filho Jair Miranda, que foi um dos maiores
cenotécnicos que esta cidade do Recife já teve, profissional respeitadíssimo no
meio, tendo sido também diretor do mesmo Teatro de Santa Isabel e do Teatro do
Parque. Conto tudo isso, como um preâmbulo para falar da minha ligação
umbilical com o TAP e, por consequência, com Um Sábado em 30.
Esta montagem, estreada em 08 de
julho de 1963, há sessenta anos atrás, tornou-se um clássico, além de ser uma
montagem, que literalmente passou de geração em geração. Quando o pano do
Teatro de Santa Isabel subiu para que o TAP entrasse em cena com o texto de um
autor pernambucano, os jornais da cidade já haviam noticiado bastante sobre a
próxima estreia dos Amadores: “A peça de Luiz Marinho Falcão, que acaba de ser
premiada (1º lugar) no concurso anual pela União Brasileira de escritores,
secção [sic] de Pernambuco, “Um Sábado em 30”, segundo se afirma será montada
pelo Teatro de Amadores de Pernambuco.”[2]. Até aquele momento, Luiz
Marinho Falcão Filho, era um dramaturgo ligado do Teatro de Cultura Popular. Que
já havia montado duas peças suas, A
Derradeira Ceia (1961) A Incelença
(1962), direção de Luiz Mendonça. O TCP, surgido no seio do Movimento de Cultura
Popular, criado em 1960 e esfacelado após o golpe militar de 1964, era uma
espécie de contraponto ideológico ao pensamento do TAP, assim também era o
Teatro Popular do Nordeste, encabeçado por Hermilo Borba Filho. Os Amadores
eram um grupo da elite produzindo arte para a elite.
Luiz
Marinho nasce no interior de Pernambuco, Timbaúba, ao pé da serra dos Mocós.
Constrói sua dramaturgia a partir, sobretudo, de um universo de crendices,
violeiros, vaqueiros, cegos de feira, capitães de fandango, cangaceiros e
outros tipos locais, com os quais toma contato em sua infância e adolescência
interioranas. Autor de outros textos, como A
Derradeira Ceia, A Incelença, A Afilhada de Nossa Senhora da Conceição,
Viva o Cordão Encarnado e A Promessa.[3]
Apesar de o texto ter sido
premiado em 1963, Marinho já o havia concluído em 1960, quando entregou-o a
Valdemar de Oliveira, que fez algumas sugestões ao autor, sugestões que deram a
forma final ao texto, encenado e premiado em 1963.
Desde
aquele 08 de julho de 1963, Um Sábado em 30, ligou definitivamente
Luiz Marinho ao TAP, que posteriormente montou A Incelença e A Afilhada de
Nossa Senhora da Conceição (1973), A
Estrada (1993), além das inúmeras remontagens do clássico Um Sábado
em 30.
A
peça de Marinho, passada em uma antessala de jantar de uma casa de uma senhor
de engenho na cidade Timbaúba, tendo como pano de fundo os acontecimentos da
Revolução de 1930. “Praticamente, não há enredo. Ou o enredo se apresenta “aos
pedaços”, com encadeamento dramático não rigoroso”[4]. Inegável que Um Sábado
em 30 é recheado das memórias de menino timbaubense de Marinho, como o
próprio afirmou:
Quando
menino, tinha o gosto, pouco comum, de andar pela cozinha, misturado com os
empregados e de passar horas escutando-os conversar. Muitas vezes desejei ser
do mato e participar daquelas histórias, daquelas pelejas por eles contadas. Agradava-me,
sobretudo, o seu linguajar e introduzia-o em minhas palestras com frequência tal
que deu trabalheira imensa a minha família corrigir-me. Aos sábados ninguém me
arredava da cozinha. Era o dia em que chegavam, do mato, para a feira, parentes
de empregados que iam ‘assistir’ lá em casa. [...] Outra intenção não tive, ao
escrever esta pecinha, a não ser evocar um pouco, um sábado lá em casa e
homenagear aquela gente que eu quero muito bem e que anda por aí dispersa sem
que jamais possa revê-la, novamente.[5]
A tal pecinha, a que Marinho se
refere, tornou-se um clássico, desde sua estreia com o elenco formado por Diná
de Oliveira (Sá Nãna), Lêda Jácome Sodré (Joana), Reinaldo de Oliveira (Chico),
José Sylvio Custódio (Julião), Sulamits Lira Santos (Leninha), Elaine
Cavalcanti Soares (Zefa), Ruth Rosenbaum (Filó), Norma Corrêa de Almeida (Dona
Mocinha), Antonio Brito Miguel (Seu Severiano), Vicentina Freitas do Amaral
(Quitéria), Romildo Halliday (Major Paulino), Nair Brito Filha (Luzia), Carmela
Mattoso (Maria das Mercês), Tereza Cristina Vieira de Melo (Maria de Jesus),
Claudio Basbaum (Romeu), Luiz Carlos Nunes Machado (Gustavo), Adhelmar de Oliveira
(Seu Quincas), José Maria Marques (Vasco) e Cladira Hallyday (Ama), com direção,
cenário e figurino de Valdemar de Oliveira.
Embora tenha sido bastante criticada
pela imprensa local, por ser demasiado acentuado o teor hilário do texto,
tornando-o uma caricatura, quase uma caricatura sentimental, como havia sido a
montagem de Onde Canta do Sabiá de
Gastão Tojeiro dirigida por Hermilo Borba Filho para o TAP em 1958. É como se
Valdemar tivesse transformado o texto de Marinho numa comédia de costumes à la
Martins Pena, tornando-se irrelevante os aspectos mais sérios do texto, como a “tensão
de classe” ou a crítica àquela sociedade interiorana da década de 1930.[6]
Mesmo tento sido severamente criticada
a montagem passou à história como um fenômeno. Levada à cena pelo TAP por 29
anos ininterruptos, excursionando por diversos estados do país. Sendo remontada
quase anualmente entre 1992 e 2008. Leva à cena nos momentos comemorativos do
TAP, inauguração do Nosso Teatro (1971), na reinauguração do Nosso Teatro, já
rebatizado de Teatro Valdemar de Oliveira (1982), após o incêndio que destruiu
a sede do grupo (1980), nas comemorações do cinquentenário do TAP, nas comemorações
do centenário de nascimento de Valdemar de Oliveira (2000), nas comemorações
dos 70 anos do TAP. Enfim, desde a noite de estreia a peça de Luiz Marinho está
intrinsecamente ligada à história dos Amadores.
Além disso, Um Sábado em 30, tornou-se uma coisa espécie de herança de família, para não negar as raízes em que estiveram fincadas a ideologia do grupo desde sua fundação em 1941. Nas diversas remontagens, a peça chegou a reunir 3 gerações de uma mesma família no palco. Alguns começaram interpretando crianças, passaram às personagens adolescentes, às jovens empregadas da casa, até chegar a dona da casa, como aconteceu com Renata Phaelante, que começou interpretando a menina Leninha, passou à uma das filhas adolescentes da casa, depois interpretou por longo tempo Filó, a empregada e por último, recebeu a chave da casa de Dona Mocinha das mãos de Geninha da Rosa Borges que passava simbolicamente na entrega da chave a personagem Dona Mocinha que havia interpretado em várias remontagens à Renata que passaria a defendê-la dali em diante. Caso mais curioso é o de Reinaldo de Oliveira, que por mais de 50 anos interpretou a mesma personagem, Chico, tendo ao longo da carreira da peça atuado ao lado de sua mãe Diná de Oliveira, que interpretava, possivelmente, a mais genial de suas criações no palco, Sá Nana. Reinaldo ainda atuou ao lado de sua esposa, Dulcinéia de Oliveira, de sua filha Dinazinha, de sua filha Patrícia, de sua neta Júlia.
Sá
Nana e Diná
O papel de Sá Nana, a espevitada
velha criada da casa de Seu Quincas de Dona Mocinha, coube a Diná de Oliveira,
a primeira dama do TAP. Papel que ela desempenhou até meados das década de
1990, quando por motivos de saúde precisou se afastar do palco.
Desde a estreia em 1963, a
interpretação de Diná para Sá Nana foi destaca pela crítica. Como apontou Joel
Pontes:
Encontro, então, Diná de Oliveira num dos seus trabalhos mais perfeitos, precisa nas réplicas e inflexões – as suas inflexões tão exatas de nordestina, que noutras ocasiões se atritam com a personagem e que, nesta, alcançam efeitos cômicos que são também verdadeiras reproduções da realidade.[7]
Quando
de uma excursão do TAP ao Rio de Janeiro, o crítico Yan Michalski apontou as
qualidades de Diná na interpretação de Sá Nana:
Grande parte dessa graça deve-se à presença de Diná de Oliveira, uma velha senhora como teatro brasileiro não as possui mais. Animadíssima, maliciosa ao extremo, conhecedora profunda dos macetes através dos quais um ator pode valorizar ao máximo um efeito cômico, ela conquista de saída, e merecidamente, a simpatia da plateia e as honras da noite.[8]
A
atriz que já havia dado vida a Bernarda Alba de Lorca, a Madame Clessi de
Nelson Rodrigues, parecia ter encontrado a maior personagem de sua vida, a personagem
que a consagraria junto ao público, chegando quase a confundir-se com a atriz.
Sá Nana, inclusive, foi tão forte na vida de Diná que era subindo ao palco para
interpretá-la que conseguiu superar a perda de seu companheiro de vida e de
teatro Valdemar em 1977. “Ela me domina. Foi ela quem me arrastou de volta ao
palco e me fez descobrir que em mim existem duas Dinás: uma que chorava e outra
que, retornando à cena, redescobria fascinada o idealismo de Valdemar”[9].
Diná foi substituída por Maria Paula, a partir de 2000, quando TAP retornou ao seu clássico espetáculo para dar início às comemorações do centenário de seu fundador Valdemar de Oliveira. Reinaldo de Oliveira, que a esta altura já havia assumido a direção do espetáculo dizia que tomou um grande susto quando viu Maria Paula caracterizada pela primeira vez de Sá Nana tal a semelhança dela com a Sá Nana de Diná. Nas últimas apresentações do TAP de Um Sábado em 30, Sá Nana foi interpretada pela atriz Isa Fernandes.
O meu Sábado em 30
Não
me lembro a data exata em que assisti a primeira vez Um Sábado em 30,
possivelmente na temporada de 2000 em comemoração aos 100 anos de Dr. Valdemar.
Mas sei que de imediato aquele espetáculo me tomou por completo. Na última vez
que contei já o havia assistido mais de 40 vezes. Foram inúmeras vezes que
acorri ao Teatro Valdemar de Oliveira para assisti-lo. Em seguidas temporadas meu
ingresso era sempre o ingresso para a cadeira A2 ou A1, a primeira cadeira do
corredor da primeira fila. Fascinado assisti incansavelmente, ao ponto de saber
falas decoradas, marcas decoradas, de saber quando um ator ou atriz errava ou
improvisava. Vi diversas configurações de elenco. Fui assistir ao Amadores no
Teatro de Santa Isabel, no Teatro do Parque, qualquer apresentação comemorativa,
participação em festival, lá estava eu, mais uma vez. Meu sonho de ator iniciante
era estar naquele cenário, fazendo parte daquela história. Inconscientemente
era como se eu estivesse buscando um quinhão da herança da minha família, um
pequeno galho da árvore que havia sido plantada há décadas com a ajuda de meu
bisavô.
Posso
até hoje fechar os olhos e dizer do início ao fim as marcações de cena, as
inflexões de cada fala, as roupas de cada personagem, o lugar exato de cada
móvel ou objeto de cena. Tudo está incrustrado na minha memória como marca do
que sou. Mas, hoje são só lembranças. Lembranças que jamais se apagarão.
O
TAP já praticamente não existe, o Teatro Valdemar de Oliveira está fechado, em
condições lastimáveis, mas a história gloriosa do idealismo de Dr. Valdemar jamais
deve ser esquecida. O texto de Luiz Marinho não pode ser esquecido. As criações
geniais de Diná, de Reinaldo, de Vicentina, de Vanda Phaelante, de Clenira Melo,
de Ivanildo Silva e de tantos outros que deram vida às personagens do texto não
podem, não deve ser esquecidas.
[1]
OLIVEIRA, Valdemar de. Mundo submerso:
memórias. 3ª ed.
Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1985. p.148.
[2] A
PEÇA DE LUIZ MARINHO FALCÃO, QUE ACABA DE SER PREMIADA (1º LUGAR) NO CONCURSO
ANUAL PELA UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES, SECÇÃO [SIC] DE PERNAMBUCO, “UM
SÁBADO EM 30”, SEGUNDO SE AFIRMA SERÁ MONTADA PELO TEATRO DE AMADORES DE
PERNAMBUCO. Diario de Pernambuco, Recife, 23 de maio de 1963. Segundo Caderno,
p.3.
[3]
CADENGUE, Antonio Edson. TAP – sua cena
& sua sombra: o Teatro de Amadores de Pernambuco (1941-1991). Recife:
Cepe: SESC Pernambuco, 2011. v.2. p.98.
[4] Ibidem. p.96.
[5]
MARINHO, Luiz. Apud TEATRO DE AMADORES DE PERNAMBUCO. Um Sábado em 30. Recife,
1963. Programa.
[6]
VIEIRA, Anco Márcio Tenório. Luiz
Marinho: o sábado que não entardece. Recife: Fundação de Cultura Cidade do
Recife, 2004. p.100-101.
[7]
PONTES, Joel. Diário Artístico. Diario
de Pernambuco, Recife, 18 de jul. 1963. Segundo Caderno, p.1.
[8]
MICHALSKI, Yan. Um velho álbum de família. Jornal
do Brasil, Rio de Janeiro, 06 de jul. 1976. Teatro.
[9] OLIVEIRA,
Diná. Diario de Pernambuco, 1997.
segunda-feira, 15 de maio de 2023
Onde vou te encontrar?
domingo, 15 de janeiro de 2023
mentira de amor
mesmo que de mentira fosse
para me dizer, ao menos uma vez,
com falsidade mesmo:
eu te amo!
e tal mentira seria verdade
naquele breve instante.
eu seria feliz por um segundo
e tudo depois se acabaria
a mentira, a verdade, o amor...
pois até os que dizem a verdade,
a verdade de amores,
até mesmo o verdadeiro amor,
mentira é.
domingo, 27 de novembro de 2022
Caminhos Descruzados
Te amar demais
O tempo é morto, a vida é fria.
Já não sei que rumos tomar.
A estrada é infinita?
Finito é tudo.
Sei que o tempo de amar já passou.
Sei também que já não serei amado.
Como nunca o fui ao longo desta triste estrada cinzenta.
Contemplei o amor alheio e tudo aqui me roeu a alma.
Alma que um dia esperançou um doce e terno beijo.
Um envolvimento quente de um abraço amoroso.
Um pequeno afago de mãos cálidas.
E o que tive?
A distância, a frieza, a indiferença.
Tão forte e lancinante como um aço frio de um punhal brilhante de prata.
E só.
Nada mais. Nada.
Busco teu corpo e já não estás aqui.
Tento recordar teu cheiro mas ele também já se evolou nou ar.
Perdeu-se no tempo. Como eu me perdi nas escolhas que fiz.
Arrependimentos, hoje, posso dizer tê-los.
Mas não podemos dar marcha à ré.
Os intantes da vida não serão nunca capturaveís.
Teu amor jamais me pertenceu.
A tua indiferença esta me foi completamente devotada.
Mas mesmo assim não te tenho rancor.
Vejo-te ainda com ternura e carinho.
Este é o meu mal, o de te amar demais.
sábado, 30 de janeiro de 2021
Tempo Morto
Um dia tudo será passado.
Eu também terei passado.
Serei um amontado de fotografias esmaecendo numa velha caixa de sapatos ou no fundo de uma gaveta nunca aberta.
Aos poucos como as fotografias eu também irei desaparecendo das memórias.
Quando os que me conheceram forem também passado já não serei lembrado.
Assim é o tempo.
O tempo passado, tempo morto de mortos que não já não terão importância.
Quando enfim se desmancharem no ar as lembranças já nada mais terá ficado.
Nem o que fui, nem o que o fiz será relevante.
Este é o caminho que todos percorreremos.
Ninguém a ele escapará.
domingo, 18 de outubro de 2020
Cronos Cruel
O Tempo é o mais cruel dos deuses.
Ele te corrói o corpo.
Destrói o rosto.
Empalidece a tez.
Enbranquece os cabelos, quando não os leva embora.
O Tempo te priva dos teus.
Carrega para longe os entes.
Faz sumir as lembranças.
Esmaece as imagens.
O Tempo é sempre assim.
E anda sempre em uma única direção.
O Tempo te leva veloz.
Te atrasa também.
Ele é implacável.
Incansável.
O Tempo é.
terça-feira, 7 de julho de 2020
Coleção
Não temia por mim, pela decadência do meu corpo.
Me amedrontava a passagem do tempo por saber que rumávamos todos para o fim.
Tinha medo pois sabia que se continuasse deixaria muitos para trás.
O horror era de pelo caminho perder os meus, os entes.
Eu tinha medo pelo envelhecimento dos outros.
Dos que eu amava e que tinha certeza que eu perderia.
A vida é assim, dizam-me.
Tudo tem um fim. Prepara-se.
Nunca estamos de fato preparados.
Ao longo dos anos fui me dando conta que a vida é isso, vamos andando e colecionando saudades.
Um cheiro que não se sente mais.
Uma voz que não se ouve mais.
Um rosto que já não se pode acariciar.
O colo em que não podemos mais deitar.
A cada novo passo a coleção vai aumentando.
Até um dia em que você vira parte de alguma coleção.
sábado, 29 de fevereiro de 2020
Trem passageiro
De ano em ano.
Tão igual.
Diferente também.
O nome é o mesmo.
O teu sorriso é mais bonito.
Teu cheiro é doce.
Teu corpo macio. De pelos delicados.
Emaranhados os dois.
Numa cama furtiva.
Nossas pernas dançam.
Teu jeito manso, delicado.
Rapidamente nos vemos.
Intensamente vivemos.
Te vais.
Eu fico.
Dentro de um ano nos veremos outra vez.
Será tudo igual?
Sei que não seremos mais os mesmos.
Menos cabelos, mais pelos brancos.
Não temos o privilégio de vermo-nos envelhecer diariamente.
Quando nossos olhos se reencontrarem tomaremos um susto.
Rapidamente notaremos que já não somos como há um ano atrás.
Que muito chão se passou entre nós.
Os beijos, os carinhos, o desejo, estes permanecerão.
Meu trem lindo.
Trem que segue para as Minas.
Eu estarei cá, no porto.
Atracado como um velho navio, cansado de guerra.
Em pouco menos de um ano teus trilhos chegarão novamente ao porto.
E tudo será festa.
Mesmo que tua parada seja ligeira.
O sol iluminará nossas mãos dadas.
E mais uma vez seremos só nós dois.
Vai, trem.
Saibas que quando voltares estarei de braços abertos como o mar para te receber.





