Elevo-mo
Cabeça erguida, não me lembro.
Sei.
Um dia eu fui.
Já não sou mais.
E que cheguem os dias em que todos também não o serão.
Noites de um vento morno.
Abismo, escuro e os olhos postos no velho livro de páginas amareladas.
Marcas que o tempo deixou naquela história de amor impressa em páginas pequenas e numerosas.
As idas e vindas de um casal apaixonado.
Farto! Sim, estou.
E que tudo o mais seja cinza, sobras das brasas que um dia arderam.
Queimaram.
O fogo extinto.
A casa aberta, as janelas azuis e as paredes brancas, caiadas.
Vento que adentra pelos corredores longos e silenciosos.
Era uma vez, eram muitas vezes, que sentado eu lia sob a luz tremulante de uma vela.
Os uivos que habitavam ao redor daquele lar, já não se ouvem mais.
Tudo é calmo e tranquilo.
Como o meu pequeno coração.
As mãos antes quentes, hoje frias, geladas.
O corpo pétreo, na mesma posição de outrora.
Livros empoeirados caem das estantes.
Só.
Nada mais, não sou mais.
Fostes.
As aranhas dominam a casa.
Tecem suas redes, finíssimas, por todos os cômodos.
Até os raios de sol da manhã tem preguiça de penetrar pelos vidros das janelas.
E aquelas paredes conservam umidades e lembranças de épocas antigas.
Deixem tudo quieto.
Toquem um bolero e tudo se resolverá.
Isso basta.
Até.
diário, escritos, rascunhos, pulsações de uma vida quase completa
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Cais
e de nós não restará nada
além de tua imagem em minha lembrança
e uma gravação em que me falavas em francês.
o nosso reencontro não aconteceu.
minhas mãos não tatearam teu rosto na tentativa de guardar as tuas feições em meu corpo.
ao longo dos dias te irás apagando, esmaecendo...
desmanchar-te-ás como papel deixado ao relento sob torrencial chuva de verão.
em breve não serás mais que um pequeno sopro de saudade dentro do peito meu...
viverás tua vida em outros portos-corações, não mais em meu cais-solidão,
neste atracadouro onde navios não têm paradas para além de uma noite.
além de tua imagem em minha lembrança
e uma gravação em que me falavas em francês.
o nosso reencontro não aconteceu.
minhas mãos não tatearam teu rosto na tentativa de guardar as tuas feições em meu corpo.
ao longo dos dias te irás apagando, esmaecendo...
desmanchar-te-ás como papel deixado ao relento sob torrencial chuva de verão.
em breve não serás mais que um pequeno sopro de saudade dentro do peito meu...
viverás tua vida em outros portos-corações, não mais em meu cais-solidão,
neste atracadouro onde navios não têm paradas para além de uma noite.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Sonho (ardente) de uma noite (quente) de verão
A F.L., mas que mais parece chamar-se P.
Há muito tempo eu não escrevo à mão.
E você me inspirou a retomar a escrita no papel.
Eu viro a cabeça e cheiro meu ombro, teu cheiro ainda está em mim.
Tua cabeça ainda pesa sobre o meu peito.
E posso sentir nossas pernas entrelaçadas.
Nosso corpos nus esparramados numa cama grande.
Nossos prazeres ressoando nas paredes e um quarto quente.
É verão. E a noite foi alegre. Como as noites de verão numa cidade litorânea do Nordeste do país.
E eu te abracei, você me beijou, nossos pés arriscaram passos e uma dança desajeitada.
Teu corpo suado exalava um aroma bom e que eu gostaria de sentir por toda eternidade. Mas...
Amanheceu.
Eu refiz o caminho de volta pra casa.
Teu sorriso matinal e o primeiro beijo de bom dia com gosto de menta ardia em meus lábios.
No meu quarto, também quente, de uma tarde, deitei-me em minha estreita cama, agarrado a um livro que havia semanas eu tentava terminar de ler. Consegui.
Foi duro dar o último suspiro junto à personagem retratada, era Joana, mas podia ser G.H., poderia ser também Laura, a galinha, não.
Era a escritora que morreu de câncer.
Envolta em sua aura de mistério.
Mas quando o vento, o pouco do vento que soprava, entrou pela janela, meu corpo exalou o teu cheiro. O cheiro a nossa noite, quente, feliz, de orgasmos.
E teu olhos apareceram para mim.
Como uma visagem, como uma miragem de um oásis no deserto do meu coração.
E eu sorri. Um sorriso tímio, confesso.
Pois, em mim ainda pulsava a esperança de um último reencontro antes que partas para tuas terras estrangeiras.
Que, enquanto escrevo, não sei se acontecerá.
Ponto final.
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
De um calor
Era um domingo, não sei.
Não lembro bem.
Você estava ao meu lado.
Deitados naquela cama.
Não, não era uma cama.
Apenas um colchão, jogado despudoradamente no chão.
Um fino lençol branco o cobria.
E você me dizia, com aquela voz mansa:
- Deus está morto! O mundo não roda mais.
E sorríamos.
Como duas crianças.
E éramos, sim, duas crianças.
O vento entrava pela janela e nem nos apercebíamos daquilo.
Era Deus presente ali.
Arre!
Por que metemos Deus entre nós?
O que havia em nossos corpos era o diabo.
Fogo, carne e desejo.
A nos consumir naquelas tardes quentes de um verão.
Naquele verão fomos como Adão e Eva no Paraíso.
Caminhávamos nus dentro do apartamento.
Pouco nos importávamos com as milhares de janelas que nos espiavam.
Dentro daquelas quatro paredes estávamos num paraíso.
Cometíamos o pecado a luxúria, mas não estávamos em pecado.
Era o amor.
Com todos os seus perfumes, odores e suores.
Animais, aninhávamos nossos corpos.
Teu sexo contra o meu sexo.
Exalávamos ternura e assim nos entendíamos.
Que música ouvíamos? Não sei ao certo.
Talvez a sua cantora preferida, talvez a minha...
Quem sabe não era uma canção que as duas cantaram juntas?
Da memória daquele verão só me ficou o teu corpo.
Tão tenro, tão macio, jovial.
E o gosto de tua boca.
Como doce. Doce que nunca mais provei.
O verão acabou.
E com ele acabou o nosso idílio.
Fomos cada uma para um lado.
Lado opostos, que fique bem claro.
Nunca mais nos cruzamos.
E aquele verão...
As brisas de verão, de qualquer verão me trazem as lembranças de teu corpo.
E eu dou um sorriso.
Tímido, é verdade, mas um sorriso sincero.
E um sentimento de saudade bate.
Te digo, é sempre bom sentir o teu cheiro novamente.
Não lembro bem.
Você estava ao meu lado.
Deitados naquela cama.
Não, não era uma cama.
Apenas um colchão, jogado despudoradamente no chão.
Um fino lençol branco o cobria.
E você me dizia, com aquela voz mansa:
- Deus está morto! O mundo não roda mais.
E sorríamos.
Como duas crianças.
E éramos, sim, duas crianças.
O vento entrava pela janela e nem nos apercebíamos daquilo.
Era Deus presente ali.
Arre!
Por que metemos Deus entre nós?
O que havia em nossos corpos era o diabo.
Fogo, carne e desejo.
A nos consumir naquelas tardes quentes de um verão.
Naquele verão fomos como Adão e Eva no Paraíso.
Caminhávamos nus dentro do apartamento.
Pouco nos importávamos com as milhares de janelas que nos espiavam.
Dentro daquelas quatro paredes estávamos num paraíso.
Cometíamos o pecado a luxúria, mas não estávamos em pecado.
Era o amor.
Com todos os seus perfumes, odores e suores.
Animais, aninhávamos nossos corpos.
Teu sexo contra o meu sexo.
Exalávamos ternura e assim nos entendíamos.
Que música ouvíamos? Não sei ao certo.
Talvez a sua cantora preferida, talvez a minha...
Quem sabe não era uma canção que as duas cantaram juntas?
Da memória daquele verão só me ficou o teu corpo.
Tão tenro, tão macio, jovial.
E o gosto de tua boca.
Como doce. Doce que nunca mais provei.
O verão acabou.
E com ele acabou o nosso idílio.
Fomos cada uma para um lado.
Lado opostos, que fique bem claro.
Nunca mais nos cruzamos.
E aquele verão...
As brisas de verão, de qualquer verão me trazem as lembranças de teu corpo.
E eu dou um sorriso.
Tímido, é verdade, mas um sorriso sincero.
E um sentimento de saudade bate.
Te digo, é sempre bom sentir o teu cheiro novamente.
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Sonhar
O voo livre já não é tão livre...
Amar já não nos permitem.
E é alto o preço que pagamos por andar na contramão.
Abismos que se plantam a nossa frente.
Viver é sempre delicado.
E já não somos mais como éramos ontem.
Talvez nunca sejamos.
Sonhemos enquanto é tempo.
Haverá um tempo em que não mais poderemos.
Sejamos livre, ao menos no sonho.
E assim, talvez, a vida tenha sentido.
No sonho.
Amar já não nos permitem.
E é alto o preço que pagamos por andar na contramão.
Abismos que se plantam a nossa frente.
Viver é sempre delicado.
E já não somos mais como éramos ontem.
Talvez nunca sejamos.
Sonhemos enquanto é tempo.
Haverá um tempo em que não mais poderemos.
Sejamos livre, ao menos no sonho.
E assim, talvez, a vida tenha sentido.
No sonho.
terça-feira, 15 de julho de 2014
Mistério
Eu não sei que estranha ligação existe entre nós.
O amor, não sei se é real.
Atração e calorosos beijos nos encontros fortuitos.
Palavras de acarinhar e de ferir.
Eu não sei que mistério é o nosso.
Que calor e sabor existe entre nossos corpos.
O teu e o meu.
Tão perto e tão longe.
À você, que eu nem sei como chamar.
E é simples e universalmente complexo o nosso sentimento.
Amor e ódio.
O que é, o que foi, que possivelmente, ou talvez, não será.
O amor, não sei se é real.
Atração e calorosos beijos nos encontros fortuitos.
Palavras de acarinhar e de ferir.
Eu não sei que mistério é o nosso.
Que calor e sabor existe entre nossos corpos.
O teu e o meu.
Tão perto e tão longe.
À você, que eu nem sei como chamar.
E é simples e universalmente complexo o nosso sentimento.
Amor e ódio.
O que é, o que foi, que possivelmente, ou talvez, não será.
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