diário, escritos, rascunhos, pulsações de uma vida quase completa

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Quando

Quando for silêncio terei saudade do barulho.
Quando for velho terei saudade da juventude.
Enquanto estou aqui não sinto nada.
Vivo.
E isto me basta.
No presente do presente estou atento para que no futuro o que presente seja uma memória do passado.
Na eterna expectativa do que virá.
Do devir que é agora.
E já não é o instante em que escrevia a linha anterior.
Os versos saem.
E o futuro se concretiza no papel.
Quando comecei este traço era futuro.
E agora já é passado.
O instante incapturável é o fugidio estado presente.
Que efetivamente não existe.
Ele é transitório e efêmero.
Como nós também somos transitórios.
Pois amanhã (futuro) posso já não ser.
E o que é o quando?
Se nada é de fato estanque e imutável.
Eu sei.
Já não me peça explicações.
Sinta.
E quando for, assim, será.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Quando dormem os homens?

Todos os dias.
Os dias todos.
Cada vez um novo vinco.
Uma nova nervura.
Cada vez menos brilho e viço.
Quando me vejo.
Já não me reconheço.
Onde?
Que espelho refletirá o que há?
E não o que aparento.
Cada dia.
Todos os dias.
Quantos dias ainda restam?
A estrada já se anuncia seca.
Será o fim?
Ou o retorno?
Tudo se acaba como começou.
E o findo será infinito.
Eterno retorno que sempre se mostrará diferente.
Não é mais e é ao mesmo tempo.
Todos os dias, o ciclo.
O sol.
E cada dia menos chão.
A terra.
E sempre e só e vazio e criminoso.
A ponta que aponta na direção de lá.
Quando?
Em que face eu me verei?
Quantas faces eu terei ao chegar?
Já nem sei mais.
Eu vou.
Perdendo, ganhando, ora sou herege ora santo.
Sou carne e alma.
Body and soul.
E já serei pó.
Silêncio de pássaros de bicos fortes.
E quando?
Um dia me bastará.
E de repente já não serei ajuntamento de sangue, músculos, ossos, derme e líquidos.
Em minha incompletude completarei o a trilha de tudo que há para ser vivido.
E tudo, então, terá valido a pena.
Numa tarde ou numa manhã, quem sabe numa noite, já não habitarei.


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Tanto

Tanto tempo passou...
Tanto mar correu...
Tanta água caiu...
Tanta lágrima...
Tanto silêncio em meu coração...
Tanta saudade...
Quanto tempo passou?
De fato não sei.
O mar ainda corre.
A água ainda cai.
Lágrima, mais nenhuma.
Silêncio em meu coração, ainda.
Saudade já não há.
Nossos caminhos tão díspares hoje.
E tudo se acalmou.
O amor arrefeceu, se dissipou.
Fiquei.
E já não sei (tampouco quero) amar.
Vivo. E isto me basta.
Já não quero mais nada além de mim.
Eu sou.

domingo, 17 de julho de 2016

Baticum de Fevereiro

Bate e fica.
Vai e não volta.
Samba, requebra, rebola.
Baticum, bate tambor, anda.
Vai e fica.
Bate, quilombo.
Tenras carnes de coxas.
Pés descalços no chão de terra.
Bate, levanta poeira.
Sambe, semba, samba.
Bate, bate, rebola, requebra.
Bate onda do mar, que quebra, requebra doce e bela.
Espuma e sargaço do mar.
Vem, vai, bate, rebenta.
Rebento de terra morena.
Samba, semba, sambe.
Toca viola, chora viola.
Risca faca na louça, é festa, é fevereiro.
É dois, são rosas brancas, festa no mar.
Espelho, presente, perfume e flores.
Samba, samba, samba.
De adentrar pela noite o barulho, do prato, dos pés.
O barulho do mar quebrando nas pedras.
É festa, é fevereiro, é dois, dia de mar, dia de agradecer.
Bate, rebate, requebra, rebenta.
Saias rodadas, brancas batas, torsos de seda.
Colares de contas, muitas, contas.
Samba, semba, semba, sambe.
É festa, é terreiro, é luz na candeia.
Viva a voz, vivas, vivas.
Requebra, rebenta, dona dos cabelos negros como o negrume da noite.
Chora viola, risca faca.
Vivas, é fevereiro, é lavagem, é festa!

sábado, 16 de julho de 2016

Quantos?

Quantos homens estão dentro de mim?
Quantos braços fortes construíram paredes, muros e palácios?
Quantos desgarrados morreram assolados pelas misérias do mundo?
Quantos se perderam nas estradas da vida?
Quantos homens estão dentro de mim?
Quais foram meus antepassados que nestas terras aportaram?
Que trilhas cruzaram para estarem aqui há séculos atrás?
Que amores foram sufocados em porões de navios?
Quantos peitos derramaram leite em bocas miúdas?
Quantos gritos foram silenciados sob o jugo de açoites?
Quantos homens estão dentro de mim?
Quantos foram os que verteram seu líquido seminal para construir este povo?
Quantos ventres geraram estes filhos da pátria?
Quantos nasceram mortos de olhos abertos e assustados?
Quantos homens estão dentro de mim?
Quantas mãos se erguerão para me acusar?
Quantos golpes e tiros serão necessários para me derrubarem?
Quantos serão os que me levarão a última morada?
Quantos chorarão a minha morte?
Quantos?

(Dizia a mulher vestida de negro, cabelos presos em coque, em pé, no meio da praça.).

sexta-feira, 20 de maio de 2016

passado

vai-e-vem
tanto foi que nunca mais voltou.
foi.
não vem mais.
nunca virá.
vai e não vem.
passou.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Réquiem para um quase amor

Ruas desertas
Estradas poeirentas
Naufragados barcos
Adormecidos sonhos
Tudo o que sou
Ou tudo que sobrou de mim
Em outras bocas te procurei
Usei teu nome para te sentir
Teu perfume não esqueci
Era o desejo falando
Querer-te e não ter-te
Um dia qualquer e já não estavas
Isso nunca entendi
Sofri, chorei, pelo que nem sequer fomos.