diário, escritos, rascunhos, pulsações de uma vida quase completa

sábado, 20 de agosto de 2011

Inútil busca.

Saía à procura de alguma coisa que nem mesmo sabia do que se tratava.
Buscava ansiosamente nas noites escuras por algo que ainda acreditava encontrar.
Entrava madrugada adentro numa incessante e ávida descoberta de algo incomensurável.
Era uma desesperada necessidade de estar junto daquilo.
Seu corpo era levado por uma força que o fazia vagar naquelas noites.
Havia no fundo uma esperança perdida de retomar ou tomar para si uma coisa de era sua.
Não, era antes uma vontade de conhecer esta coisa que não podia nomear.
Os fantasmas do passado lhe assombravam nestas noites frias.
Aquele corpo que se movia, como que impulsivamente, sofria com o cansaço.
Mas, algo maior o empurrava naquela caçada.
O alvo, indefinido, não sabia estar perto ou longe.
Apenas ia.
Quando os pés feridos e doloridos desistiam, retorna pelo mesmo caminho enfadonho.
Retornava à sua casa, seu canto, sua cama quente.
Voltada de alma e coração vazios.
Perdia o sono e deitado vagueava pelos pensamentos desconexos.
E outros dias viriam, outras noites, em que a rotina se faria presente e massacraria toda alusão à mudança.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Talvez.

Talvez quando o amor me acenar eu já não lhe saiba responder.
E tudo tenha passado.
E tudo tenha sido em vão.
O peito sangrado.
A carne dolorida.
Minha alma desfeita.
Talvez quando o amor gritar por mim eu já esteja surdo.
E tudo que senti esteja enterrado.
E tudo que meu corpo viveu, apagado.
As lágrimas secas.
Talvez quando o amor bater em mim meu coração esteja inerte.
E tudo que pulsou esteja morto.
E os pés estejam plantados numa terra fria.
E meu corpo esteja fechado, protegido.
Talvez quando o amor chegar eu já nem serei vivente.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Acreditar

- Se eu ainda acredito no amor? E por que não acreditaria? Se é ele que me alimenta a alma e me faz pulsar? Quando eu deixar de acreditar no amor podem me enterrar! Estarei morto e frio. Coração de pedra. Enquanto sangue correr dentro de minhas veias eu estarei vivo e amando. Que me importa se um pouco deste mesmo sangue ficará pela estrada? Se o amor que tanto bem me faz também me ferirá? Me cortará ao meio algumas vezes, talvez até muitas vezes. Mas, é isso que sempre quis. Sofrer por amor. Não, por favor, eu não vou dizer que quero ser feliz eternamente, isso deve ser uma chatice. Um rotina de 'bom dia', café na cama, sorrisos, 'até logo', almoços sem fim, 'cheguei amor', jantar, 'boa noite, meu amor'. Essa mediocridade eu não me permitirei. Eu quero sofrer como os grandes poetas, estraçalhar as vísceras como nas tragédias gregas. Eu quero AMOR, não amorzinho. Não me deem pouco, eu quero muito, eu quero mais, eu quero alma inteira, corpo quente e vivo. Eu quero sexo gritado, roupas rasgadas, calor emanado de corpos suados. Eu quero prazer, alegria e dor. Eu quero continuar amando com força e lágrimas. Não quero mãos dadas e passeios no parque. Isto é pouco e pequeno. Amor é maior. E eu quero esse amor.

Dizia de si para si, talvez, para ainda se sentir vivo e se acreditar com um propósito na vida. Era vazio e sem ninguém. Mas, sua altivez e arrogância ainda eram as mesmas de outrora.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Espelho Velho

Quando quis frear o tempo não mais conseguiu.
Olhou-se num espelho velho, manchado.
Conseguiu se ver por trás das marcas do vidro.
Já não se reconhecia.
A pele encarquilhada e transparecendo todo o cansaço de uma vida.
Os cabelos prateados e rareados.
Uma fronte severa. Boca enrugada e silenciosa.
Tocou levemente as faces com as mãos outrora quente e vívidas.
Dedos frios que percorreram todos os sulcos da pele.
Não se sabia tão velho e triste.
Fixou-se nos olhos castanhos...
E ali se reconheceu.
Viu outra vez o menino alegre e feliz. A criança que brincou descalça e comeu fruta do pé.
A carcaça envelhecida não apagou aquele brilho de menino.
Que pelas janelas da alma irradiava vida.
Sentiu-se vivo.
Jogou o lençol empoeirado sobre o espelho estragado e se prometeu esquecê-lo.
Guardaria sua imagem de criança até o fim.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Nascimento

Quando o Espaço abre um buraco e o vácuo grita, nós somos jogados no mundo e não sabemos viver.

Voo.

Dou um passo as pontas dos pés rentes.
Abro os braços. Dedos muito esticados.
Redentor.
Sinto o vento forte nas minhas roupas, no rosto, sereno.
As vozes ecoam no meu ouvido.
Vejo os anos passarem ligeiro à minha frente.
O sol é testemunha.
As nuvens seguem seu caminho tranquilas.
Meus olhos abrem-se num reflexo. Olham o chão, lá longe.
Alcançarei-o em segundos.
Fecho os olhos pela última vez. O vento é mais forte.
O último passo.
O vazio. O nada. Os metros correm. Voam.
Eu não senti.
As asas bateram. Pousei como uma ave.
O chão frio de pedra rara.
A visão contrária a de instantes atrás.
O fim no alto.
Ponto distante.
Acabou. Não há vento.
Não há mãos estendidas.
Os pés já não pisam.
O último voo foi completado com sucesso.
Pouso final terminado.
Fim.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

É tempo de amar...

É tempo de amar.
Preciso me preencher de sentimentos.
Rasgar meu peito com amores vãos.
Ocupar meus braços com corpos sãos.
Viver de paixão.
Alegrar-me em ouvir vozes queridas.
É tempo de amor.
Amor vadio.
É hora de se doar.
Viver e se entregar.
O meu coração pede amor.
Os ventos sopram brisas leves.
Tudo conspira para tal.
Abrir o peito e se deixar flechar.
É Eros que paira sobre nós.
É tempo de amar.
Minhas mãos estão ansiosas por percorrer caminhos de um corpo alheio.
Envolver no meu calor um peito amante.
Corações batendo compassadamente.
Estampar sorrisos nos rostos.
É meu desejo.
Eu preciso amar.
O tempo é de total amor.
Vivamos apaixonados.
Amemos-nos.