diário, escritos, rascunhos, pulsações de uma vida quase completa

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Lentamente

Porque me falta o amor vou morrendo lentamente.
Porque não sei viver sem tê-lo.
Porque me fogem entre os dedos as forças vou minguando.
Porque um dia eu pensei que tudo seria diferente hoje me dói.
Por que tantos amores passaram?
Porque como as estrelas se apagam um dia eu também apagarei.
Porque falta o amor.
São tantos porquês e nenhuma resposta.
Ou porque são muitas resposta que eu não aceito.
Me falta o amor por quê?

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Cais

Andei mundos, longos caminhos em busca de algo.
Em busca de alguém que me preenchesse o vazio.
Voltei ao lugar de origem.
Voltei como saíra outrora: vazio.
Todos os corpos por onde passei ficaram para trás.
Eu sempre fui passagem.
Travessia para passantes.
Meu corpo sempre foi caminho.
Nunca porto.
Atracar em meu cais nunca puderam ou apenas não quiseram.
Ancorar nas águas profundas da minha alma ninguém tentou.
Sempre passagem, sempre caminho.
Marinheiros vadios que passearam por meu corpo preferiram aportar noutros corpos.
E eu fiquei, recebendo as pancadas do mar.
Vazio.

domingo, 16 de junho de 2019

Pouco importa

Pouco importa o que virá.
Onde esse caminho vai dar?
Quando chegaremos a algum destino?
Pouco importa o futuro, amanhã já é futuro.
E tudo é incerto.
Eu quero o agora.
Quero-te neste instante.
Em que minha língua percorre toda a extensão do teu corpo.
A provocar-te arrepios e prazer.
Estes momentos em que nossos corpos se enroscam.
E quando cansado tu adormeces ao meu lado.
Tua respiração fica mais profunda e te entregas ao sono.
Enquanto eu vigio teu corpo adormecido e nu.
Isto é o que vai ficar.
Está aí o que importa.
Reside nestes momentos irrepetíveis o que é importante.
O resto é firula.
Não quero enfeites, badulaques.
Quero-te cru, osso.
Peles, carnes, humores, sangue e suor.
Assim já me basta.



sexta-feira, 8 de março de 2019

Breve

Onde reside a ternura?
No teu leve sorriso.
Onde te guardarei?
Nas memórias dos doces carinhos.
Em que parte de mim ficarás?
No meu todo.
Onde seremos dois novamente?
Espero que em breve.
De uma breve piscadela aos mais singelos toques de mãos vivemos pequenos instantes, fotogramas, de uma rápida e doce sintonia.
Ao fundo a Voz, aquela que nos leva da lama ao céu.
Sinto ainda teus dedos entrelaçados aos meus, com a brisa do mar a nos tocar levemente as cabeças de raros fios.
Poucas palavras.
Para quê tanta verborragia se nossos olhos diziam mais do que as palavras pudessem alcançar.
Te guardo em mim como uma linda lembrança de fim de verão.
Quero também ser para ti uma boa memória.
Um pequeno confete que sobreviveu ao carnaval.
E isto bastará.
Me saber parte de tuas lembranças.
De nomes, iguais, de gostos parecidos. Me guarda. Pois eu já te guardo.
Até.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

O silêncio, a solidão, a morte.

A solidão tem um cheiro forte.
Um gosto de não saber.
A solidão pede silêncio.
A solidão é o silêncio.
Há dentro de mim uma euforia.
Um corre-corre que não cessa.
Mas o silêncio está aqui.
Penetra-me as carnes.
Enrijece-me as partes.
O silêncio, que é a solidão, paralisa-me.
O seu cheiro entra pelas narinas de forma sutil.
E quando vejo-me já não sou mais eu.
O meu corpo já não é o meu.
Envelheci. Entristeci.
Entretanto há ainda uma confusão dentro de mim.
Que é a mesma, que será sempre a mesma.
Um barulho ensurdecedor que me acompanha por toda a vida.
Fora não. Fora reinam todas as tristezas que colecionei pelo caminho.
Todas as infindáveis mágoas que feriram-me a derme.
O cheiro é como o cheiro do éter que se espalha pelo ar fazendo-o evaporar.
Fazendo evaporar em mim o que resta de felicidade e de brilho no olhar.
Centelhas de amores que um dia cultivei já estão se apagando.
Estão morrendo.
Enfraquecendo como meus músculos.
Apodrecendo como minha cabeça.
Estão morrendo. Como eu morro um pouco a cada dia.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Apodrecimento

Cronos, fazei chegar o tempo do meu apodrecimento.
A ordem natural das coisas deve seguir.
Brotar, desenvolver, amadurecer...
Apodrecer.
Átropos, cortai-me o fio tecido por tuas irmãs.
Entegue-me a Tânatos.
Já pouco careço de viver por aqui.
Que me chegam as chagas que carrego há anos neste desterro.
Meus pés cansados já não têm firmeza.
O corpo arqueia, fraqueja.
Não quero, não quero.
Hermes me guiará no caminho final.
E lá no Hades encontrarei o que me estará destinado.

O último reino que habitarei.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

À beira-mar

Meus olhos quase não acreditaram.
Quando já não esperava te rever surges no espelho retrovisor.
Um momento de grata surpresa.
Uma alegria me invade.
Meus braços são pequenos para os abraços que guardei por tanto tempo.
Meus lábios não comportam tantos beijos.
Seu sorriso é como um raio do sol de seu lugar.
Todos os carinhos são poucos para demonstrar minha felicidade.
Um reencontro à beira-mar.
A brisa do Atlântico nos envolve, o mar e o céu cheio de estrelas são testemunhas.
Sim, ter-te novamente junto a mim só confirma:
Você está em mim.
Sua mão na minha mão.
Nossos calores unidos.
Meu coração pulsava ritmado com a arrebentação.
Tudo era lindo e real.
Nossos afetos existem.
Energias que irradiam.
Um momento que guardaremos com docura.
Confirmações de que tudo vale a pena.
Seu cheiro, seu corpo, são iguais à primeira vez.
Te beijo.
Sigamos, inteiros.
Sabendo que cada um leva em si uma parte do outro.
Até.