MARIA BETHÂNIA, há 60 anos tradutora do Brasil
Há exatos 60 anos atrás, quando foi apresentada
ao País, estreando no show Opinião, aquela garota que contava
apenas 18 anos, tornou-se de pronto uma tradutora do Brasil e dos costumes de
seu povo. Bethânia de cabelos presos com seu perfil águia, dona de um nariz
aquilino, era o próprio carcará que a canção de João do Vale e José Cândido
descrevia. A sua forte interpretação dava a impressão de que aquela menina era
uma mulher de muitas vidas, de longa estrada... Na vida Bethânia foi muitas e
vem tecendo uma comprida estrada. Bethânia foi muitas pois nunca se prendeu a
estilos, modelos, nunca se vendeu, jamais se dobrou à pressões. Construiu com o
passar do anos uma carreira sólida e completa. Tornou-se uma das maiores vozes
que este Brasil já conheceu. E mesmo sendo muitas, a cantora de protesto, a
romântica, a abelha rainha, manteve-se fiel aos seus princípios. A menina
nasceu ligada à música. Foi por conta de uma canção de Capiba que fazia sucesso
no rádio na voz de Nelson Gonçalves que seu irmão, o até então caçula da casa,
implorou ao pai que a irmãzinha que estava para nascer se chamasse Maria
Bethânia. Os de casa contam que por dengo ao filho mais novo seu Zezinho teria
trapaceado em um sorteio onde todos puderam dar sua sugestão. Não houve jeito.
Era o destino, o nome escolhido foi Maria Bethânia. Sorte dela que escapou por
um triz de chamar-se Mary Gislayne.
Desde muito cedo Maria já apontava que
correria na contramão. Ainda em Salvador, amadora, a menina escolheu cantar
Nöel em um show de bossa nova, eram os tempos do Nós, Por Exemplo, show
que a unia ao irmão Caetano, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Alcyvando Luz,
Perna Fróes, Djalma Corrêa e Fernando Lona para inauguração do Teatro Vila
Velha. Foi por conta dos shows realizados no Vila que a sorte de Bethânia brilhou,
foi ali que Nara Leão a ouviu e se encantou. E logo após sugeriu o nome da
baiana para substituí-la no Opinião,
o show que mercou época, o primeiro grito de resistência contra o regime
ditatorial instalado depois do golpe militar de 31 de março de 1964. Bethânia
que quase não foi ao Rio pois, mau humorada por estar em segunda época de
matemática, o terror da sua vida, debochou do telefonema de Nilda Spencer,
grande atriz baiana, que tentava transmitir o convite vindo dos cariocas. Mas,
como disse uma vez seu sábio mano Caetano: “É engraçado a força que as coisas
parecem ter quando elas precisam acontecer”. Bethânia rumou para o sudeste de
braços dados com seu irmão para estremecer Copacabana com seu canto forte e
potente.
Após a explosão do Carcará tentaram prendê-la
no rótulo de “cantora de protesto” os tempos eram sombrios e difíceis, mas
Bethânia derramou-se nas noites das boates do Rio de Janeiro cantando tudo que
lhe dava na telha, principalmente velhos sambas-canções do repertório de Dalva
e Elizeth. Foi ela quem apontou ao irmão Caetano, seu companheiro nos inícios
cariocas, a música de Roberto Carlos e sua Jovem Guarda. Foi ela quem pediu ao
irmão uma canção sobre uma t-shirt
onde lia-se “Baby, I love you”, mas desistiu de gravá-la no disco que o irmão e
Gil arquitetavam para lançar o movimento musical que eles criaram nas famosas
reuniões no Hotel Danúbio. A canção foi gravada por Gal, virou sucesso e o
resto é história e das boas.
Nos anos de 1960 Bethânia encontra aquele que seria seu guru-mestre-amigo-parceiro-diretor, o homem que a ajudou a traduzir em sons e palavras tudo que ela queria dizer em cima de um palco: Fauzi Arap. Fauzi foi um profícuo colaborador ao longo dos anos, juntos criaram um formato de espetáculo que foi norte da cantora até os mais recentes trabalhos. Comigo Me Desavim, de 1967 foi o primeiro de muitos trabalhos que realizaram até o encantamento de Fauzi em 2013. Ao pensamento arguto de Fauzi, os gostos, sugestões e ideias de Bethânia juntaram-se os talentos musicais do Terra Trio, formado por Zé Maria, Ricardo e Fernando. Além da colaboração do cenógrafo Flávio Império. Nestes espetáculos, sempre apresentados em teatros, Bethânia pôde dar vazão à sua dramaticidade de atriz e consolidar-se como uma das maiores intérpretes do Brasil. Com roteiros construídos entre canções e textos estes espetáculos propunham dramaturgias intrincadas e cheias de metáforas, afinal a censura estava cada dia mais cruel, principalmente depois do 13 de dezembro de 1968, com a promulgação do AI-5. Fauzi colaborou com Bethânia até sua morte, em 2013, seja na direção de espetáculos seja na autoria de roteiros para os shows, estiveram juntos em diversos trabalhos antológicos da história recente da música brasileira, como Rosa dos Ventos, o show encantado de 1971, no Teatro da Praia em Ipanema no Rio de Janeiro, com produção de Benil Santos, figurinos e cenários de Flávio Império. Estes shows tinham um fio condutor alinhavado pelas letras das canções escolhidas e por textos, algumas vezes poemas outras vezes trechos em prosa, em que Bethânia se atuava plenamente na fronteira entre cantora-atriz que é. E esta posição, que ela nunca assumiu, foi balizada por gente de grande porte, como a grande Bibi Ferreira, que também a dirigiu em alguns trabalhos. Bibi afirmou e reafirmou diversas vezes que Bethânia é uma grande atriz. Vale lembrar que em 1970, sob a batuta de Bibi, em companhia do grande ator Ítalo Rossi, Bethânia participou da primeira montagem do show musical Brasileiro, profissão esperança de Paulo Pontes, em homenagem a Dolores Duran e Antonio Maria.
Nos anos de 1970 Bethânia conhece duas figuras
que irão nortear muito de sua produção artística a partir de então: Fernando
Pessoa e Mãe Menininha do Gantois. A partir de Rosa dos Ventos, Pessoa passará
a ser presença constante nos roteiros dos espetáculos, sempre com um destaque
especial. Já Mãe Menininha, Bethânia conhece através de Vinícius de Moraes, a
esta altura seu grande amigo. A partir do contato com a casa do Gantois,
Bethânia começa a apresentar mais fortemente em seu trabalho sonoridades e
reverência à cultura afro-brasileira e ao candomblé, religião que passará a
seguir. E como boa baiana que é concilia tranquilamente sua religião de berço,
o catolicismo e sua devoção à Nossa Senhora, com o culto aos seus orixás de
cabeça, Oyá e Oxum. Eis desvelada a partir de então mais uma vertente da
tradução tão pura e completa que a cantora faz do seu povo. O povo do recôncavo
da Bahia, o povo do Brasil, o seu povo.
Suas raízes fincadas no solo massapê da cidade
de Santo Amaro da Purificação estarão sempre patentes no seu trabalho, o
respeito à sua terra, ao povo de sua terra, à sua casa, tão feliz, tão cheia de
festa, amor e devoção. A doçura de sua mãe Canô, o amor às palavras e a candura
de seu pai Zeca, as devoções dos santos de casa, com reverência maior à Nossa
Senhora da Purificação. As alegrias das festas de fevereiro, a lavagem, o
samba-de-roda, Dona Edith do Prato, Roberto Mendes, Roque Ferreira, os
candomblés de caboclos, o bembé do marcado, o cheiro de cana, o Subaé, a
Cachoeira da Vitória. Bethânia sempre fitou os Andes, mas nunca esqueceu seu locus de origem. A força que nunca seca
esteve sempre na Purificação, na casa 179 da Avenida Viana Bandeira, casa
habitada por sua gente, onde Mãe Canô se encantou aos 105 anos em um 25 de
dezembro.
Nos anos de 1970 Bethânia “vira” cantora
“romântica”, torna-se a primeira mulher a vender um milhão de discos, com Álibi
de 1978, é sucesso nacional, toca nas rádios FMs e AMs. Suas gravações de Explode Coração e Negue viram sucesso instantâneo. É a cantora popular, a Rainha, ou
melhor a Abelha Rainha, a Roberto Carlos de saias. Atinge o coração do povo com
duas canções de amor. Está no disco, no rádio, na TV, está antes de tudo no
palco, com shows que cumprem temporadas vitoriosas ao longo dos anos. Ainda
durante a década de 1970 sobe ao palco com seu amigo e ídolo Chico Buarque para
uma temporada que durou seis meses no Canecão, a mítica casa de show localizada
no bairro de Botafogo no Rio, o show tornou-se histórico, o disco gravado ao
vivo com parte do repertório do show virou clássico e um encontro desta
magnitude fez até surgirem discos voadores no céu do Rio de Janeiro. No ano
seguinte, 1976, reúne-se aos amigos-irmãos Caetano, Gil e Gal para uma turnê
que rodou o país, criavam Os Doces Bárbaros, que após uma
estreia retumbante em São Paulo no Anhembi rodou o Brasil e terminou no
Canecão. O show virou filme, dirigido por Tom Job Azulay e disco duplo gravado
ao vivo. Entre tantos sucessos Bethânia encerra a década com um disco doce: Mel. Da belíssima letra de Wally
Salomão para canção de Caetano, gravada neste disco de 1979, surge um dos epítetos
que ela carregará desde então: Abelha Rainha.
Maria adentra a década de 1980 já consagrada
como grande cantora, intérprete, mulher de palco e recordista em vendagem de
discos. Mas quando tudo parecia quieto demais, pasteurizado, ela dá uma guinada
ao construir um dos mais belos discos gravados no Brasil, o seu preferido, com
uma sonoridade acústica em contraponto à sonoridade metálica e eletrônica que
dominava a música brasileira neste momento. Ciclo é uma joia na vasta discografia de Bethânia. Na sequência
estreia um show baseado no livro A Hora
da Estrela de Clarice Lispector, uma de suas paixões. O espetáculo homônimo
ao livro faz reverência à escritora e gera o disco seguinte, A Beira e o Mar, com gravação de
canções pertencentes ao roteiro do show. Bethânia começa a fazer um percurso
mais intimista com discos como Dezembros
(1986), Maria (1988), 25 anos (1990) e Olho D’água (1992) e shows como Dadaya e as sete moradas (1988). O disco de 1992, por exemplo, é um
dos discos menos celebrados por seu caráter quase hermético. Mas, quando
Bethânia parecia fechar-se em concha para o grande público sua bússola dá uma
guinada e se reorienta. E ela derrama-se sobre o repertório ultrarromântico de
Roberto e Erasmo Carlos. As Canções que
você fez pra mim, de 1993, tornou-se rapidamente um clássico, com direito à
uma versão do disco com gravações das canções em espanhol destinado ao público
hispânico. Bethânia retorna às paradas de sucesso. Repete o sucesso de vendas
de outros tempos. Bethânia é popular, é cantora do povo.
Em 1994, mais uma vez reúne-se aos
companheiros Gal, Gil e ao mano Caetano para uma linda homenagem da sua escola
de samba do coração: Estação Primeira de Mangueira. Os Doces Bárbaros são homenageados
com o enredo ‘Atrás da Verde-e-rosa só não vai quem já morreu’, e Bethânia se
fez presente no desfile na Marquês de Sapucaí. Ao completar 50 anos de idade,
em 1996, troca mais uma vez de gravadora e lança Âmbar, disco em que pela primeira vez grava uma canção de Adriana
Calcanhotto. E em 1999 dá mais uma cartada de mestre ao gravar no disco A força que nunca seca o clássico da música
sertaneja É o amor. Novamente
acerta em cheio. Bethânia mostra mais uma vez que não importa o gênero, o que
importa é se a música é boa.
Os anos 2000 começam com uma grande novidade,
Bethânia rompe contrato com sua última gravadora multinacional e começa uma
nova fase ao se integrar ao elenco da então pequena gravadora Biscoito Fino.
Esta atitude é totalmente coerente com o que vinha fazendo ao longo da
carreira. Nesta nova casa poderia fazer tudo o que quisesse e do jeito que
quisesse. Sem prender-se às demandas do mercado musical. E assim fez. Com
discos em que cada vez mais colocou explicitamente o seu pensamento sobre o seu
lugar. Em 2003 grava um disco para o lançamento do seu próprio selo Quitanda, vinculado
à Biscoito Fino. Brasileirinho, o disco
de estúdio já apontava a potência que explodiria quando transposto ao palco. Ao
estrear o show no palco do seu velho Caneção, com direção de Bia Lessa, cenário
de Grinco Cardia, participação de Nana Caymmi, Miúcha, Uakti, Tira Poeira,
Denise Stoklos, Brasileirinho, o
show, tornou-se um documento histórico, a súmula da cultura musical brasileira.
Este disco/show é material de diversos projetos pedagógicos em escolas do país.
Bethânia, a menina que sempre detestou a escola, tornou-se mestra. Professora que
nos ensina tanto através de seu pensamento cênico-musical.
Ao lançar um projeto em 2008, em que se juntou
à cantora cubana Omara Portuondo, Bethânia estreitou relações com a comunidade
latina, ao irmanar sonoridades brasileiras e cubanas no disco e no show que
percorreu o Brasil e países como Argentina e Chile. Em 2010, no show Amor, Festa e Devoção, que rendia homenagem
à sua mãe já centenária Bethânia, com seu jeito todo especial, retorna ao
universo sertanejo, ao unir É o amor e Vai dar namoro, canção do repertório da
dupla sertaneja Bruno & Marrone. O público ia ao delírio com o trecho da
canção e o olhar cheio de dengo baiano que a cantora lançava para a plateia.
A convite da Universidade Federal de Minas Gerais
Bethânia realiza uma leitura de poemas e textos para abrir o projeto Sentimentos
do Mundo realizado na universidade mineira. Esta leitura gerou o projeto Bethânia e as palavras, recital em que
a palavra falada era o foco. A cantora percorreu quase todo o Brasil com esta
leitura que gerou um registro em vídeo e em livro.
No Natal de 2012 Santo Amaro da
Purificação chora a perda de Canô, a matriarca dos Velloso se encanta aos 105 anos.
É um baque para Bethânia que suspende suas apresentações do show Carta de Amor. Mas a vida continua, e
mesmo de luto, retoma no não seguinte a turnê do espetáculo. Em 2015, ao
completar 50 anos de carreira estreia o show Abraçar e Agradecer. É homenageada pelo Prêmio da Música Brasileira
e fechando o ano comemorativo do jubileu de ouro, desfila pela Mangueira como enredo
da escola. Maria Bethânia, a menina dos
olhos de Oyá sagra a Estação Primeira campeã do carnaval carioca. E na
madrugada de 13 para 14 de fevereiro a verde-e-rosa entrou na avenida para o
desfile das campeãs. Não havia forma melhor de encerrar as comemorações do
cinquentenário de uma carreira tão sólida e pulsante. A escola de Cartola e
dona Zica, colocou na Sapucaí toda religiosidade, sincretismo e mistura
cultural que Bethânia transpirou em sua música desde o grito do Carcará. O
carnaval de 2016 da Mangueira gerou dois filmes, um deles, Fevereiros dirigido por Márcio Debellian foi exibido em diversos
cinemas do país.
A relação de Bethânia com o cinema,
aliás, do cinema com Bethânia é antiga. Paulo César Saraceni, registrou a
antológica interpretação de Carcará no show Opinião para o seu filme O
Desafio, e graças a ele este momento histórico ficou registrado. Ainda nos
anos 1960 a cantora foi personagem central do documentário Bethânia bem de perto, a propósito de um show, dirigido por Júlio
Bressane e Lauro Escorel. Em 1969 participa do documentário Saravah do francês Pierre Barouh, onde
aparece ao lado de um jovem Paulinho da Viola cantando sambas. Em 1972 tem seu
momento atriz ao lado de Nara Leão e Chico Buarque em Quando o Carnaval Chegar de Cacá Diegues. Foi tema ainda dos
documentários Maria Bethânia do Brasil
de Hugo Santiago feito para a TV francesa em 2001, Música é Perfume do francês Georges Gachot de 2005, Pedrinha de Aruanda de 2006 dirigido
por Andrucha Waddigton e Maria, ninguém
sabe quem sou eu, de Carlos Jardim lançado em 2022. É possivelmente a
artista brasileira mais registrada em documentário até hoje.
Surpreendendo todos os fãs, em 2018,
Bethânia anuncia uma turnê em conjunto com Zeca Pagodinho. O show estreou na
cidade do Recife em 07 de abril. A cantora dava mais uma prova de que, apesar
de ser identificada com uma música dita ‘elitizada’, para ela não há barreiras.
Afinal ela é uma cantora popular e música é música independente do rótulo que
se lhe dê. No roteiro do show os cantores passeavam pelo repertório do samba
brasileiro com interpretações de clássicos como Sonho Meu, A voz do Morro,
Falsa Baiana, X do Problema, Naquela Mesa, Chão de Estrelas, além das devidas
homenagens à Mangueira, escola do coração de Berré e Portela, a escola de Zeca.
Irmanavam a Bahia e o Rio pelo que os une há mais de um século: o bom Samba.
2019, Bethânia volta aos tempos das Boates de
Copacabana, ao estrear o show Claros
Breus, em uma pequena casa no Rio de Janeiro, o Manouche. Este espetáculo
que viajou algumas cidades do Brasil deu origem ao disco Noturno em que ela gravou canções de alguns jovens compositores
como Tim Bernardes e seu sobrinho Zeca Veloso. Como havia feito em diversos
momentos de sua carreira, abre espaço para novos compositores, assim como havia
feito com Gonzaguinha, Ângela Ro Ro, Adriana Calcanhotto, Chico César, Vanessa
da Mata, Ana Carolina, Lenine. Sempre antenada com as novidades da música do
país, Bethânia lançou sua luz sobre novos artistas.
Durante a pandemia que assolou o
planeta em 2020/21, Maria fez seu afago no público que ansioso esperava o
reencontro com sua cantora. Mesmo aversa às câmeras ela realizou duas
lives/espetáculos. Uma dessas apresentações aconteceu no dia 13 de fevereiro de
2021, como comemoração dos 56 anos de carreira da cantora e foi transmitida por
uma plataforma streaming.
2022 e 2023 são anos de grandes
perdas para a cantora e para o Brasil: Elza, Rita, Erasmo, Sueli Costa e Gal. Com
tantos anos na estrada e o passar implacável do tempo a artista começa a sua
geração envelheceu e começa a se despedir não só dos palcos como faz Milton
Nascimento, mas começa a se encantar. A morte inesperada de Gal em novembro de
2022 abalou todo o Brasil. Perdemos uma das mais belas vozes já ouvidas nestas
terras. Podemos crer que foi depois desse baque que Bethânia e Caetano
balançaram o país quando anunciaram no final de 2023 uma turnê que fariam em
2024. Os irmãos reeditariam o histórico encontro acontecido em 1978 no Teatro
Santo Antônio localizado na Escola de Teatro da Bahia, em Salvador. O furor
causado pela notícia demonstrou a legião de fãs que os Veloso conquistaram em
mais de seis décadas de estrada. Com ingressos disputados quase a tapas e
esgotados em poucas horas a tour Caetano
& Bethânia anunciada como a maior turnê de 2024, já passou por nove
capitais lotando estádios, com direito a show na praia de Copacabana no Réveillon
2025 e deverá se encerrar em março em Porto Alegre. O show, centrado na obra
autoral de Caetano celebra as carreiras dos irmãos, porém além da celebração paira
uma aura de despedida, de encerramento de um ciclo, de fim de uma era. É alegre
e triste. Com momentos de extrema comoção dos artistas e do público, como a
homenagem à Gal, com eles cantando Baby, a clássica canção tropicalista. Mas tudo
é mágico neste encontro e por fim saímos felizes porque eis ali tudo de novo.
Entre as grandes honrarias recebidas
pela cantora em reconhecimento ao seu trabalho tão significativo para a cultura
nacional estão o título de Doutora Honoris Causa concedido pela Universidade
Federal da Bahia (2016), a eleição para ocupar a cadeira de número 18 da
Academia de Letras da Bahia, título de Doutora Honoris Causa concedido pela
Universidade Federal do Ceará. Doutora Maricotinha consagrou-se como uma das
figuras mais importantes da cultura brasileira.
Bethânia foi sendo aplaudida e reverenciada
ao longo dos anos por seu extraordinário trabalho de palco. Aprimorou o formato
de espetáculo que desenvolveu ainda no início da carreira com seu parceiro
Fauzi e construiu um discurso coeso e coerente desde sempre. Seus shows
apresentam sempre uma dramaturgia bem construída através da seleção das canções
e textos. Estas dramaturgias aliadas ao magnetismo da intérprete que se
agiganta na arena transformam-na em uma verdadeira atriz que interpreta uma
nova personagem a cada nova canção ou poema recitado. Traduzindo através destes
espetáculos quase teatrais a alma do povo brasileiro. Ecoando suas influências,
reverberando seus mestres, suas inspirações. Quando Bethânia entra no palco
estão com ela Dalva de Oliveira, Aracy de Almeida, Billie Holiday, Judy
Garland, as grandes vozes que encantavam a menina ainda nos tempos de Santo
Amaro da Purificação. Seu trabalho deverá ser lido pelas futuras gerações como
um verdadeiro retrato do Brasil. O Brasil de verdade, o Brasil de dentro como
costuma dizer. Pois não há nada mais brasileiro do que uma mulher, descendente
de indígenas, afro-brasileiros e europeus, mestiça, nordestina, baiana que sobe
ao palco há 60 anos para se conectar com suas raízes, com suas religiões, com
sua gente, fazendo do tablado a sua tribuna para difundir suas ideias, rasgar o
peito com canções de amor e gritar sua esperança de que este país siga um rumo
bonito.
Obrigado por tudo e por muito,
Maria.
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