diário, escritos, rascunhos, pulsações de uma vida quase completa

domingo, 14 de maio de 2017

Meu coração

É o vão. É o breu.
O silêncio. A brecha.
O buraco. O fosso.
O mais profundo dos profundos.
É o chão.
O sem fim também.
A escuridão da alma.
O que me assombra, o que me assusta.
É o nada. É tudo retumbando dentro de mim.
O que não se pode falar.
O que não se pode ver.
O que se pode apenas sentir.
É o centro. É o ventre de minhas dores.
A mãe-pai de meus amores.
O músculo incessante. Incansável.
Emoldurado pelo peito. Aberto.
É o que me mantém.
O cerne do meu ser.
A fagulha divina.
É o mar e a terra.
É ele.
O relógio que nunca para.
Sentido.
Dolorido.
É o começo e o fim.
Aquilo de que não posso me apartar.
As entranhas da carne dura.
É o miocárdio.
É ciência. É poesia.
É pura sapiência e bruta ignorância.
Quem ama e odeia.
O que guarda. O que esquece.
E sempre bate.
Sempre.

sábado, 1 de abril de 2017

Morte

Desmontam-se.
A morte leva.
Viagens afastam.
E já não estão próximos os amores.
O tempo tudo leva.
Tudo apaga.
Os colos não acalentam mais.
Corpos que não se trançam mais.
Mãos não acariciam.
Silêncios que falavam muito não existem.
O barulho do mundo cobriu tudo.
Tudo deixou de existir.
A mangueira morreu.
Eu morro um pouco a cada dia.
Canto na esperança de que o vento leve até teus ouvidos o som de minha voz.
E é só o que posso fazer hoje.
Saudades que não cabem em mim.
Poeira que vou deixando nos caminhos.
Nos passos firmes que dou em direção ao nada que é o fim de tudo.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Não há.

Cavou-se em meu peito uma sepultura.
Amores foram enterrados uns sobre os outros.
E que restou? Cinzas.
Quem amou fui eu.
E nunca recebi.
Quem amei, de fato e de direito eu amei.
E em troca o vazio.
Em meu peito cavaram, cavaram.
Um grande buraco se formou.
Cratera gerada pela ausência.
De corpos para amar, ausência de mãos que não me acariciaram.
Ausência de sexo.
No meu peito-cemitério reside o meu coração-sepultura.
Ah! Solidão que tanto me acompanha, és tu, serás tu, minha eterna companheira.
Em mim, de mim, pouco restou.
O oco, o eco.
Vazio, tristeza, derradeiros sopros de uma vida se derramamento, de arrebatadoras paixões.
Violentos sentimentos que destroçaram body and soul.
Onde cavarei minha última morada?
Em que peito-cemitério serei enterrado?
Terei direito ao descanso em solo sagrado?
Em que corpo santo serei sepultado?
Dêem-me o descanso eterno.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Quando

Quando for silêncio terei saudade do barulho.
Quando for velho terei saudade da juventude.
Enquanto estou aqui não sinto nada.
Vivo.
E isto me basta.
No presente do presente estou atento para que no futuro o que presente seja uma memória do passado.
Na eterna expectativa do que virá.
Do devir que é agora.
E já não é o instante em que escrevia a linha anterior.
Os versos saem.
E o futuro se concretiza no papel.
Quando comecei este traço era futuro.
E agora já é passado.
O instante incapturável é o fugidio estado presente.
Que efetivamente não existe.
Ele é transitório e efêmero.
Como nós também somos transitórios.
Pois amanhã (futuro) posso já não ser.
E o que é o quando?
Se nada é de fato estanque e imutável.
Eu sei.
Já não me peça explicações.
Sinta.
E quando for, assim, será.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Quando dormem os homens?

Todos os dias.
Os dias todos.
Cada vez um novo vinco.
Uma nova nervura.
Cada vez menos brilho e viço.
Quando me vejo.
Já não me reconheço.
Onde?
Que espelho refletirá o que há?
E não o que aparento.
Cada dia.
Todos os dias.
Quantos dias ainda restam?
A estrada já se anuncia seca.
Será o fim?
Ou o retorno?
Tudo se acaba como começou.
E o findo será infinito.
Eterno retorno que sempre se mostrará diferente.
Não é mais e é ao mesmo tempo.
Todos os dias, o ciclo.
O sol.
E cada dia menos chão.
A terra.
E sempre e só e vazio e criminoso.
A ponta que aponta na direção de lá.
Quando?
Em que face eu me verei?
Quantas faces eu terei ao chegar?
Já nem sei mais.
Eu vou.
Perdendo, ganhando, ora sou herege ora santo.
Sou carne e alma.
Body and soul.
E já serei pó.
Silêncio de pássaros de bicos fortes.
E quando?
Um dia me bastará.
E de repente já não serei ajuntamento de sangue, músculos, ossos, derme e líquidos.
Em minha incompletude completarei o a trilha de tudo que há para ser vivido.
E tudo, então, terá valido a pena.
Numa tarde ou numa manhã, quem sabe numa noite, já não habitarei.


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Tanto

Tanto tempo passou...
Tanto mar correu...
Tanta água caiu...
Tanta lágrima...
Tanto silêncio em meu coração...
Tanta saudade...
Quanto tempo passou?
De fato não sei.
O mar ainda corre.
A água ainda cai.
Lágrima, mais nenhuma.
Silêncio em meu coração, ainda.
Saudade já não há.
Nossos caminhos tão díspares hoje.
E tudo se acalmou.
O amor arrefeceu, se dissipou.
Fiquei.
E já não sei (tampouco quero) amar.
Vivo. E isto me basta.
Já não quero mais nada além de mim.
Eu sou.

domingo, 17 de julho de 2016

Baticum de Fevereiro

Bate e fica.
Vai e não volta.
Samba, requebra, rebola.
Baticum, bate tambor, anda.
Vai e fica.
Bate, quilombo.
Tenras carnes de coxas.
Pés descalços no chão de terra.
Bate, levanta poeira.
Sambe, semba, samba.
Bate, bate, rebola, requebra.
Bate onda do mar, que quebra, requebra doce e bela.
Espuma e sargaço do mar.
Vem, vai, bate, rebenta.
Rebento de terra morena.
Samba, semba, sambe.
Toca viola, chora viola.
Risca faca na louça, é festa, é fevereiro.
É dois, são rosas brancas, festa no mar.
Espelho, presente, perfume e flores.
Samba, samba, samba.
De adentrar pela noite o barulho, do prato, dos pés.
O barulho do mar quebrando nas pedras.
É festa, é fevereiro, é dois, dia de mar, dia de agradecer.
Bate, rebate, requebra, rebenta.
Saias rodadas, brancas batas, torsos de seda.
Colares de contas, muitas, contas.
Samba, semba, semba, sambe.
É festa, é terreiro, é luz na candeia.
Viva a voz, vivas, vivas.
Requebra, rebenta, dona dos cabelos negros como o negrume da noite.
Chora viola, risca faca.
Vivas, é fevereiro, é lavagem, é festa!