diário, escritos, rascunhos, pulsações de uma vida quase completa

terça-feira, 12 de junho de 2018

Para que ser livre?

O meu corpo é livre.
Mas dentro dele habitam medos.
Em meu corpo vive uma alma aprisionada por pele, músculos, ossos.
Uma prisão orgânica.
Dentro do peito, preso, pulsa um coração.
Que mesmo aprisionado é cavalo solto nos prados.
Galopeia desembestado nos verdes campos.
O meu coração é dentro, mas quer ser fora.
A alma que se espraia por toda minha extensão corporal é sufocada por este mesmo corpo que é refúgio.
Seu alento e seu algoz.
Nesta prisão a minha 'anima' espera o dia de sua libertação.
O grande dia de sua soltura.
Quando cruzando os portais dessa assombrosa cadeia estará definitivamente liberta.
Quem sabe, talvez, a mão que acarinha tome decididamente um instrumento qualquer e de súbito adiante esta libertação.
Liberará a alma deixando uma prisão desocupada, que em pouco tempo se deteriorará e não mais será habitada.
E enfim deixarão de existir os grilhões que tanto fazem a vida pesar, que fazem-nos arrastar o seu peso deixando vincados os sulcos na terra.
Não haverá mais o medo.
E tudo será imensidão.
Tudo será leve, será infinito.
Livre.

segunda-feira, 19 de março de 2018

aforismo

tenho medo de quase tudo.
o pouco de coragem que me resta
é para amar.
despudoradamente.

sábado, 3 de março de 2018

Vive-se de amor.

Se um dia me perguntarem qual o cheiro do amor, eu direi que cheira a jasmim.
Quando florido exala seu perfume nas tardes de fim de verão.
Anunciando que o sol dará lugar ao céu cheio de nuvens.
Grossas nuvens que vêm assumir seu lugar na abóboda.
O amor é assim.
Antes raios vibrantes de um sol que aquece o coração.
Depois é silêncio e chuva.
Lembro de tudo. Não esqueço todos os momentos.
Eis o mal de se ter uma boa memória.
Hoje só perguntas ecoam em mim.
E eu estou pensando em você.
Mas eu não desejo falar de amor.
Se falo é porque só sei viver de amor.
Como numa monótona música.
Eu só sei viver para o amor.
E onde está?
Um dia eu sonhei. E o sonho me permitiu inúmeras realizações de desejos.
O que a realidade me coibiu o sonho me deu.
Quando pensei que tudo era verdadeiramente realizado, acordei.
E os sonhos se desfizeram na bruma do tempo.
Estou farto de só sentir.
Eu prefiro viver.
Mas a vida não me presenteou com a realização dos desejos mais profundos que acalentei por toda vida.
Entre todos os caminhos que a vida me ofertou eu sempre optei pelos mais longos.
Um esperança de no fim encontrar.
Não sabia bem o que buscava.
Apenas buscava.
E um dia dei por mim e vi que tudo o que eu buscava era tão somente me encontrar.
Precisei andar muitas distâncias para enfim poder entender.
E sentei-me à beira do caminho, vendo passar outros errantes, que como outrora eu fizera, andavam perdidos nas trilhas que não levavam a lugar nenhum.
Um eterno e infindável labirinto que não nos permitia derrubar suas paredes e correr.
Correr loucamente nos campos do mundo.
Quando sofri, sofri calado. Resignei-me sempre. Sem questionar o sentido de tudo.
Nada faz muito sentido na vida, essa é a verdade.
E todos as peças vão se encaixar no fim.
Quando menos esperamos todas partes serão encadeadas, numa sequência cinematográfica tudo percorrerá na nossa frente.
E é a hora dos créditos finais.
As luzes se acendem e a audiência vai tomar um sorvete, vai a um bar, vai simplesmente dormir e já não estamos aqui.
E tudo há de ter fim. E tudo tem, sim, seu fim.
O peito é estufado ao máximo, os pulmões quase não comportam tanto ar.
Inflados, voamos. Como um pequeno balãozinho cheio de hélio subimos, subimos, subimos até nos perdemos das vistas.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Ao fim.

Fazia um silêncio ensurdecedor.
Eu me lembrava de um número antigo de telefone.
Hoje é senha de banco.
Algo dentro de mim dizia:
"Tudo está errado."
Eu não entendia nada.
E hoje, creio, ainda não entendo, apesar da distância tempo-espacial.
Tudo era errado.
Tudo estava ao revés.
Eu me lembro perfeitamente.
De como tudo era confuso.
Embaralhava todas as memórias.
Tudo passava como paisagens a mais de 200 quilômetros por hora.
Rápido. Veloz. Indefinido.
Não como os traços de um desenho oriental.
Aqueles que são treinados por anos até que possam ser praticados com firmeza e rapidez.
Era uma velocidade atordoante.
E eu permanecia aflito.
Sem saber que no futuro era a calmaria.
Uma bolha de silêncio em meio ao caos.
Uma pasmaceira entendiante.
Resto de estrada a trilhar.
E que ao fim me depararia com "temida das gentes".
O meu conterrâneo, sábio poeta de versos afiados era quem já me avisava.
Um dia ela chega.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Vãos amores.

Quantos corpos passaram por mim.
Tantos carinhos fugazes.
Muita ternura repentina.
Os olhos que se encontram e se conectam rapidamente.
Os sexos que se penetram velozmente.
Comunhão de carnes.
Quantos idílicos amores de uma noite.
Tantos beijos ardentes que usam.
Muito amor volátil.
As mãos que se entrelaçam.
Os desejos saciados.
O ápice na petit mort.
E quantos ficam?
Tantos se vão.
Todos se evadem.
Sozinho.
Silente e vazio.
Em que paragem terminará a incansável busca?
Qual o peito em que repousará tudo que arde em mim?
Em quais lábios calarei me desejo?
Qual o sexo em que derramarei meu amor?
Sou só é já não quero sê-lo.
Onde andarás?
Quanto te demoras?
Silêncio.

domingo, 14 de maio de 2017

Meu coração

É o vão. É o breu.
O silêncio. A brecha.
O buraco. O fosso.
O mais profundo dos profundos.
É o chão.
O sem fim também.
A escuridão da alma.
O que me assombra, o que me assusta.
É o nada. É tudo retumbando dentro de mim.
O que não se pode falar.
O que não se pode ver.
O que se pode apenas sentir.
É o centro. É o ventre de minhas dores.
A mãe-pai de meus amores.
O músculo incessante. Incansável.
Emoldurado pelo peito. Aberto.
É o que me mantém.
O cerne do meu ser.
A fagulha divina.
É o mar e a terra.
É ele.
O relógio que nunca para.
Sentido.
Dolorido.
É o começo e o fim.
Aquilo de que não posso me apartar.
As entranhas da carne dura.
É o miocárdio.
É ciência. É poesia.
É pura sapiência e bruta ignorância.
Quem ama e odeia.
O que guarda. O que esquece.
E sempre bate.
Sempre.

sábado, 1 de abril de 2017

Morte

Desmontam-se.
A morte leva.
Viagens afastam.
E já não estão próximos os amores.
O tempo tudo leva.
Tudo apaga.
Os colos não acalentam mais.
Corpos que não se trançam mais.
Mãos não acariciam.
Silêncios que falavam muito não existem.
O barulho do mundo cobriu tudo.
Tudo deixou de existir.
A mangueira morreu.
Eu morro um pouco a cada dia.
Canto na esperança de que o vento leve até teus ouvidos o som de minha voz.
E é só o que posso fazer hoje.
Saudades que não cabem em mim.
Poeira que vou deixando nos caminhos.
Nos passos firmes que dou em direção ao nada que é o fim de tudo.