diário, escritos, rascunhos, pulsações de uma vida quase completa

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Grito!

Vai grito sem fim, me rasga a garganta e te espalha pelo mundo. Uma dose virulenta de dor no mundo já tão cheio de dor. Fere-me as entranhas, faz-me cuspir sangue ou fogo. Vai, me deixa. Vai pensamento pesado, eu prefiro a leveza dos campos limpos sem ideias. Eu quero não sentir. Eu preciso explodir. Expurgar tudo que me consome sistemática e diariamente. Vira-me pelo avesso, expõe todo meu corpo, minhas carnes fracas. Arranca-me o coração a cru. Decepa-me os membros, fura-me os olhos, para que eu não veja mais a dor, a imensa e obscura dor que me aperta o coração. Eu quero ser pedra. Papel, voar leve. Subir, alçar voos longínquos. Perder-me no espaço, alto e claro. Virar algo que não sinta. Pedra. Tropeços, nos outros provocar. Sai, grito faminto de ar. Deixar tudo que está preso ser liberto. Vai, vagão vazio de trem enferrujado, correndo solto pelos trilhos. Pomba malhada arrulhando nas tardes de verão. Eu quero não combinar nenhum pensamento. Apenas viver. Aprender. Jogar. Azar. Vômito viscoso e azedo, bile esverdeada cuspida longe, pela janela do décimo quarto andar do prédio. Esparramado no chão. Colado ao solo. Adentrando o solo. Vai, meu grito, eco vazio do meu ser. Espelho do meu interior, neste instante. Corrói os ouvidos de quem te ouvir. Come a felicidade alheia. Seja muito egoísta. Assim como eu sou, fui, serei, ontem, hoje, sempre, agora ou nunca. Em mim, em ti, passado quase se apagando no presente e inexistente no futuro. Futuro que nem sei se chegará. Ave de rapina, bico curvado, assassina. Voa, voa, cai. Fruto podre da árvore da vida. Meu espírito encarnado no vento. Grito, alto, contraio minhas costelas contra meus pulmões, até que elas os perfurem. E eu cuspa todo o sangue. Como os românticos. Morrer do mal do amor. Vai, pássaro ardente. Vai, meu grito, tão longe e tão alto quanto meus pensamentos. Que eu já não saio do chão. Agarrado a minha morada final. Amém.

Um comentário:

Beatriz Braga disse...

se for para explodir, assim o seja.
se for para gritar, fique ä vontade.
se for para voar, eu quero ir junto.

promete?

doído, mas lindo.